Sefarditas

Plataformas sociais como o Facebook e o Twitter costumam ser campo fértil para disseminação de lendas urbanas e informações falsas. Na segunda categoria eu encaixo as listas de sobrenomes de suposta origem judaica que dariam às pessoas que os tivessem o direito à cidadania portuguesa, conforme decisão do governo português publicada no Diário da República de 27 de fevereiro de 2015. Essa decisão repararia um erro histórico cometido contra os sefarditas, judeus da Península Ibérica.

Os sefarditas sofreram terríveis perseguições por parte dos poderes locais e da igreja e acabaram sendo expulsos da Espanha, em 1492, por ordem dos reis católicos Fernando e Isabel. Em fuga, buscaram refúgio em Portugal, onde, em 1497, foram forçadamente convertidos ao cristianismo. O fato é que as perseguições persistiram até 1821, quando chegou ao fim o Tribunal da Inquisição, responsável pelo julgamento dos acusados de judaísmo e ofensas à fé católica.

Para fugir da perseguição, muitos sefarditas emigraram para outros países do Mediterrâneo, para o norte da Europa, o Brasil e os Estados Unidos, onde se integraram às sociedades locais. Agora, pela medida oficial do governo de Portugal, os descendentes desses judeus teriam o direito de retorno como cidadãos portugueses, desde que comprovem sua ascendência.

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Expulsão dos Judeus – Fonte: desconhecida

Em termos práticos, não adianta buscar o sobrenome nas listas do Facebook, pois, embora houvesse sefarditas expulsos com sobrenomes como Nunes, Pinto e muitos outros encontrados nessas listas, esses sobrenomes não eram exclusivos de judeus ou judeus forçados à conversão – conhecidos como cristãos-novos. Eles eram – e são ainda – também comuns entre famílias que sempre foram cristãs – conhecidas como cristãs-velhas. A comprovação da ascendência deverá ser feita, como esclarece a Comunidade Israelita de Lisba (CIL), uma das entidades locais habilitadas a conceder o certificado “que atesta a tradição de pertença à comunidade judaica sefardita de origem portuguesa”, mediante atendimento de requisitos objetivos e comprovados de ligação a Portugal, tais como sobrenomes, idioma falado pela família, descendência direta ou colateral.

A forma mais segura de comprovar a descendência direta ou colateral, como se pode supor, é mediante um estudo genealógico aprofundado que retroceda até antepassados que viveram nos séculos citados com comprovação de pertencimento a uma comunidade judaica e/ou que tenham sofrido algum tipo de processo por parte do Tribunal do Santo Ofício, o tribunal da Inquisição. Para isso, uma fonte importante, além dos arquivos regionais, são os Arquivos da Torre do Tombo.

Para ter mais informações a respeito desse processo, recomendo a leitura da seção específica no site da CIL ou da Comunidade Israelita do Porto.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

2 comentários

  1. […] observado que o texto que mais atrai leitores aqui no blog é aquele em que falo dos judeus sefarditas e da lei que lhes permite a aquisição da cidadania portuguesa caso comprovem a ascendência até […]

  2. […] Isso obviamente não me dá direito a requerer a nacionalidade portuguesa, como já abordei em outro texto, mas pode indicar novas linhas de investigação […]

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