Cartas

O jornalista Luís Ernesto Lacombe lançou, em 2016, a obra Cartas de Elise – uma história brasileira sobre o nazismo. Na obra, Lacombe conta como, após a morte de sua avó Lisette, brasileira, descobriu no apartamento dela a correspondência mantida por anos entre ela e sua sogra Elise, que era alemã. O pano de fundo da história é o crescimento do nazismo. Hitler tornava cada vez mais difícil a vida de judeus como Elise, que não podiam mais exercer suas profissões e tinham grande dificuldade até mesmo para vender suas posses e sair da Alemanha. Vou parar por aqui para não arruinar sua leitura do livro, que recomendo, pois, além do registro histórico desse triste momento da História, há lições a tirar dele para a pesquisa genealógica.

A primeira lição é a necessidade de preservar registros de família. Não tivesse a avó de Lacombe guardado a correspondência, certamente essa parte da história de sua família ficaria perdida para seus descendentes. Cartas, bilhetes e fotografias de família devem ser guardados em condições que permitam sua preservação para as gerações futuras. A tecnologia digital parece ter tornado esse processo relativamente simples, mas não se deve confiar cegamente na tecnologia. Lembre-se de que, há apenas algumas décadas, as pessoas armazenavam arquivos de imagem em disquetes que hoje são praticamente inúteis por falta de computadores com dispositivos capazes de lê-los. Na dúvida, imprima os registros dos momentos familiares que deseja preservar para a posteridade.

A segunda lição é que os registros feitos em texto precisam ser transcritos ou traduzidos, pois nem sempre será fácil ou mesmo possível paras as próximas gerações decifrá-los. A transcrição é necessária porque as regras ortográficas e a caligrafia mudam com o tempo – e não esqueçamos que há pessoas cuja caligrafia é quase ininteligível – veja o exemplo abaixo, no assento paroquial de antepassados meus. No relato de Lacombe, as cartas trocadas entre sua avó e bisavó precisaram ser traduzidas do alemão, língua que o jornalista não falava. Traduções custam caro, mas ele teve a sorte de ter uma irmã casada com um alemão e fluente no idioma.

Felipe Fernandes e Anna Lourenço
Assento de Casamento de Felipe Fernandes e Ana Lourenço – 4/03/1666 – Vila Real, Portugal

A terceira e última lição é que as transcrições textuais devem merecer tratamento similar ao dispensado às fotografias. O armazenamento digital é sempre mais simples e barato, pois um dispositivo de armazenamento – cartão ou pen drive – pode armazenar milhares de páginas de texto. Mas, novamente, é preciso advertir que esses dispositivos estão sujeitos a erros e seus delicados circuitos eletrônicos podem queimar, pondo a perder todo o investimento feito. Na dúvida, recomendo a impressão sob forma de livro. Pode-se até pensar em criar uma coleção de história da família.

A lição aprendida é simples: preservar os registros da família para garantir que as futuras gerações conheçam sua história.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

5 comentários

  1. […] me canso de repetir que toda família deveria se preocupar em guardar cartas, diários, fotografias e relatos orais para a posteridade. Mais do que servir apenas a fins […]

  2. […] texto anterior, afirmei que os documentos familiares – assentos, certidões, cartas -encontrados durante uma […]

  3. […] em fontes primárias – assentos paroquiais de batismo, casamento e óbito; testamentos; cartas; jornais e revistas entre outros -, mas também pode recorrer a bases de dados criadas a partir das […]

  4. […] fabricante de cerveja e empresário do setor de construção civil, segundo relato deixado em carta por um de seus filhos. Segundo relatos familiares, foi em homenagem a esse irmão que meu pai […]

  5. […] fontes documentais possíveis para pesquisa genealógica, já mencionei os assentos paroquiais, as fotografias e cartas familiares, os registros militares, os periódicos e as cartas régias. Todas são consagradas, embora não […]

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