Escravidão

Sempre soube que tinha antepassados africanos. Meu avô materno era negro, e minha mãe certa vez contou que sua bisavó teria sido escrava e falecido com mais de 100 anos. O que nem ela nem eu imaginávamos – e só descobri muito mais tarde por meio de pesquisa genética – é que ela também tinha antepassados africanos pelo lado materno. O assento de batismo abaixo poderá comprovar isso quando eu puder eliminar outros dois candidatos.

eleuteria
Assento de Batismo de Eleutéria – 8/03/1807 – Nova Iguaçu, RJ

Aqui a transcrição do assento:

Aos oito dias do mês de março de 1807 anos, nesta freguesia de Santo Antonio de Jacutinga, [] vigário Mariano José de Mendonça batizou e pôs os santos óleos em Eleutéria, inocente, filha natural de Lourença, crioula, solteira, escrava do Alferes Victorino [Maciel]. Foram padrinhos Francisco Manoel e [Ignácia ]. Do que fiz este assento. O coadjutor João Baptista da Silva

À primeira vista, esse assento se parece com os que poderiam ser encontrados em Portugal na mesma época, mas há uma diferença notável: os antepassados diretos não são completamente nomeados. Apenas o primeiro nome da mãe é informado, pois parece que importava somente declarar a cor da mãe, sua condição de escrava e o nome de seu proprietário. Foi isso o que encontrei nos inúmeros assentos que analisei enquanto buscava o registro de batismo de Eleutéria. Assentos como esse, infelizmente, trazem grande desafio para o genealogista, pois, sem os nomes completos dos pais e avós, muitas vezes as descobertas cessam e um ramo da árvore fica interrompido.

Mas isso não retira desses assentos sua importância, quer seja para o descendente da pessoa registrada, quer para nossa interpretação de nossa condição como povo mestiço. Qualquer brasileiro que se disponha a fazer um estudo genealógico poderá se deparar com um assento semelhante. O que ele fará depois dessa descoberta dependerá de sua consciência de que povo nós somos e dos preconceitos que lhe tenham sido transmitidos por sua família. No primeiro caso, ele poderá partir em busca do conhecimento do que foi esse período da História – e que envolve sua história pessoal; no segundo caso, poderá buscar refúgio na negação de seu passado.

Tenho um causo para contar que me parece dizer respeito ao segundo caso citado: certa vez, conversava com uma conhecida sobre o que descobri sobre o que a genética me ensinou sobre meus antepassados – falarei disso em outro texto – quando ela afirmou veementemente que não tinha antepassados negros, pois sua família era meio portuguesa e meio italiana. Para evitar controvérsias – e também pelo choque – preferi não comentar, mas a afirmação revelava o quanto ela desconhecia da história de seus antepassados. Mas aqui posso comentar sem risco de ofendê-la:

  1. Os italianos atuais descendem dos antigos romanos, mas também de inúmeros outros povos que foram por eles colonizados e escravizados, inclusive africanos. E em Roma, como no Brasil colonial, os proprietários tinham filhos com suas escravas;
  2. Os portugueses, bem antes do descobrimento do Brasil e por falta de mão-de-obra no sul do país, começaram a escravizar africanos para o trabalho agrícola e o doméstico. E lá também tiveram filhos com suas escravas. A maioria dos descendentes desses filhos de senhores e escravas hoje desconhece sua herança africana, mas alguns já a descobriram.

Os portugueses já estavam familiarizados com [as africanas], pois, desde o século XV, eram enviadas para Portugal. Trabalhando como escravas, em serviços domésticos e artesanais, acabavam se amancebando ou casando com eles. | Mary Del Priore – Histórias da Gente Brasileira – Volume 1

Eis, portanto, que a miscigenação na Itália e em Portugal começou muito, muito antes do enorme comércio de vidas humanas que, no século XIX, respondia pelo fato de haver mais africanos do que brancos no Brasil colônia e muito antes da tentativa posterior de embranquecimento do país por meio do incentivo à imigração de italianos como mão de obra para a lavoura. O resumo, se é que se pode dizer assim, é que ninguém pode garantir sua herança genética sem fazer a genealogia ou um teste genético.

Infelizmente, o desconhecimento desses fatos dá margem a suposições falsas sobre a história familiar e, frequentemente, gera e mantém preconceitos que causam enorme mal a crianças em fase escolar e a adultos na vida profissional e social. É por essa razão que defendo que o estudo dos antepassados seja incorporado como atividade transversal a diferentes disciplinas escolares, por exemplo:

  • Língua Portuguesa: análise histórica da linguagem dos assentos e sua transcrição para posterior produção de textos descritivos e narrativos e de diferentes gêneros – jornalístico, diário pessoal etc. – a partir das informações extraídas;
  • Matemática: estimativas da taxa de mortalidade infantil e correlação com fatos históricos que justifiquem o aumento dessa taxa em certos períodos;
  • História: estudo da vida social e econômica nos períodos relacionados aos assentos descobertos de forma a buscar resgatar a vida das pessoas representadas, uma vez que certamente não haverá outros registros disponíveis.

A genealogia por muito tempo foi considerada um passatempo fútil, típico das classes mais abastadas ou de pessoas em ascensão social que buscavam justificar seu sucesso pela descoberta de antepassados nobres ou coisas similares. Espero ter demonstrado que ela tem valor no mundo contemporâneo, nem que seja o de nos ajudar a evitar a repetição de erros do passado.


José Araújo é linguista e genealogista amador.