Fidelidade

Um genealogista não deveria buscar méritos em diatribes políticas. Exceto, claro, quando o alvo de suas investigações teve algum envolvimento na política de sua época e – especialmente – quando o pensamento crítico desse alvo parece trazer alguma reflexão para as discussões do momento em que vive o genealogista.

Trata-se de uma opinião pessoal, mas me sinto bastante confortável em externá-la, pois neste blog grande parte dos exemplos citados é extraída de minha árvore pessoal, e a escolha dos temas é ditada por minhas preferências e pelo andamento de minhas pesquisas, o que não me obriga a prestar contas a ninguém.

O mérito que desejo destacar neste texto é o da fidelidade tal como demonstrada por José Pinto Rebello de Carvalho, primo de minha trisavó, a quem já dediquei vários textos e dedicarei outros mais em virtude de sua trajetória de vida e contribuição ao pensamento histórico sobre o liberalismo português. Uma contribuição que fica evidenciada nos vários estudos acadêmicos que discutem sua produção jornalística e literária (veja um exemplo aqui).

José Pinto era, como já afirmei, partidário do movimento liberalista e constitucionalista, que se contrapunha à monarquia absolutista. Ainda quando estudante de Medicina na Universidade de Coimbra, ele redigiu o Censor Provinciano, periódico no qual defendia suas causas, a saber: o livre mercado, a educação pública para todos, o fim da excessiva influência do clero na política e a renovação da academia – especialmente de sua alma mater, a Universidade de Coimbra – à luz dos princípios do Iluminismo.

Por sua afiliação à causa liberal, José Pinto era, por definição, partidário do príncipe Dom Pedro, filho do rei Dom João VI e da rainha Carlota Joaquina. Sua admiração pela figura de Dom Pedro era tal que, por ocasião das núpcias de sua alteza, dedicou-lhe, em 1818, os Versos às faustíssimas núpcias de S.A. o Príncipe Real do Reino-Unido de Portugal, Brazil, e Algarve, o sereníssimo D. Pedro de Alcântara, com a sereníssima senhora Dona Leopoldina Carolina Josefa, Arquiduqueza d’Áustria, os quais foram lidos na sala grande dos doutoramentos da Universidade de Coimbra (baixe a obra aqui).

Destaco um trecho da obra em que fica evidente a admiração de José por Pedro:

Eu não m’illudo, oh Deosas de Permesso…
É mais sublime a pompa deste Dia!
Em que o Filho Gentil da Bella Urania
A fausta Lusitania
Enche d’alma alegria.
Do Filho de João, Monarcha Excelso
Do Imperio Lusitano, Invicto PEDRO
O Preclaro Hymeneo celebra Elysia!
Que ha de na Prole, magestosa, Augusta
De Reis Heroes perpetuar-lhe a serie!

Eterna seja
Fausta Alliança,
Que Austria e Bragança
Vem de fazer!

O mesmo Pedro I que de príncipe de tornou imperador do Brasil em função das circunstâncias deflagradas após o retorno de seu pai a Portugal e a tomada do trono português por seu irmão Miguel, tornou-se, à vista de José Pinto, um traidor do trono português. Conquanto José abominasse o absolutismo irrestrito de dom Miguel, a separação entre Brasil e Portugal realizada por Pedro era para ele apenas um ato irresponsável de um jovem imaturo que se encontrava sob más influências como a de José Bonifácio.

Jean-Baptiste_Debret_-_Coroação_de_D._Pedro_I,_1828

Coroação de D. Pedro I, 1828 – Jean-Baptiste Debret [Public domain], via Wikimedia Commons

Essa opinião fica clara nos seguintes trechos do exemplar do Censor Provinciano publicado em 4 de janeiro de 1823, aos quais acrescento meus destaques:

IMPERIO DOS BOTICUDOS !!!
OS ultimos correios tem sido ferteis em noticias extravagante, ou criminosas… a mais façanhosa de todas é a INVESTIDURA do novo imperador dos Boticudos… Sim, dos Boticudos, porque não é crivel, que esses dispersos povos brazileiros, a despeito de seus esquentados cérebros, se rebellasem contra a Mãi-Patria, que os considerava, sem differença, como todos os mais membros da familia portugueza, para se fazerem escravos d’um moço-principe sem educação, sem talentos, sem virtudes… antes designado por todos os que o conhecem, como um tôlo, mal creado e cheio de crimes de não pequena monta!!! Não é crivel, que os povos do Brazil escolhessem muito espontaneamente semelhante malvado para seu tyranno, depois de se mostrarem tão zelosos de sua liberdade!… Esses, que todas as occasiões se tem visto tão propensos para o Republicanismo, escolherião agora um governo cheio de todos os vicios, collocando á sua testa um moço vicioso, que não tem outras qualidades mais, do que ser filho d’um rei magnanimo, fiel e amigo do bem da Nação?

[…]

Portugual teria devido estimar por bastantes motivos essa separação de nosso manos di-lá. Homens, que proclamão e jurão a Constituição, que fizessem as Côrtes; que a ellas mandão seus Representantes; que logo requerem o principe pedro, para delegado do poder executivo; que não medeando muito, o intitulão seu defensor perpetuo com um conselho de nova invenção… e por ultimo (agora) o denominão magestade imperial, com suas brazileiras Côrtes d’uma especie mui particular; que recebem em principio de sua nova organização politica um mimo d’algumas duzias de ridiculas titulagens, e outras cambadas semelhantes; que applaudissem á inaudita atrocidade de seu imperador, que manda açoitar os soldados, os bravos soldados portuguezes, que em serviço de tamanho malvado vertêrão o seu sangue!

[…]

Não é o Brazil, muitas provincias do qual estão na obediencia das Côrtes, que proclama por seu imperador a um principe ignorante, dissoluto e rebelde: é uma facção, de que é chefe Bonifacio d’Andrade, que se apossa da inexperiencia e da perversidade d’um filho degenerado do rei de Portugal, para dominar as provincias trans-atlanticas do reino-unido. Mas não se pense que eu sinto grande mágoa com a dissidencia americana… eu mostrarei, que Portugal nada perde, antes bem longe disso, elle ganhará immenso com a só proscripção, que as Côrtes ha muito devrêão de ter feito desse abominavel monstro, a quem eu mesmo (sem conhecer) prodigalizei elogios, e que só merece abominação e o desprezo de todo o homem de bem; esse perverso sem moral e sem honra, que tendo insultado as familias do Rio de Janeiro com a mais abominavel devassidão…

[…]

elles tem tanto direito a rebellar-se como tem qualquer provincia europeia… isto é, não tem nenhum. Mas os Brazileiros são dominados por uma facção, o Governo de Portugal deve livral-os della e punir todos os seus rebeldes auctores… Se esta medida porém se faz conveniente á Patria, é o que eu tenho por duvidoso. Os portuguezes do Brazil não são inimigos dos da Europa, nem estes daquelles; e conservadas as relações, que entre todos devem existir, nada perdemos. Portugal ganha pela dissidencia d’um principe indigno de vir um dia governal-o;

Voltando, então, ao mérito da fidelidade, posso afirmar que José Pinto era fiel, mas não à figura de Dom Pedro, e sim à causa liberal e a Portugal. Diferentemente das fidelidades personalistas que vemos hoje no Brasil, demonstradas mesmo por pessoas de muito estudo, é motivo de grande orgulho saber que tenho entre meus parentes alguém que era capaz de elogiar e condenar uma figura história por seus atos, não por apenas ser quem era.

Aos que criticarem este texto por aparentemente ter pouco a ver com o tema do blog, recomendo que leiam com maior cuidado, pois é evidente a intenção de demonstrar como o estudo de fontes adicionais, quando existentes, permite a descoberta de traços do caráter dos antepassados em foco.


José Araújo é linguista e genealogista amador.