Assinatura

… se mal escrevo, não sou eu só; doutores há por ahi, que também assignão de +.

José Pinto Rebello de Carvalho – In: O Censor Provinciano Nº 12, 22/02/1823.

Esta afirmação foi feita por um primo de minha trisavó, estudante de Medicina na Universidade de Coimbra, a quem já dediquei vários textos aqui no blog. Embora talvez seja impossível confirmar a verdade do que se diz ali sobre os doutores, “assinar de cruz” foi um costume na sociedade portuguesa, evidenciado nos assentos paroquiais durante muitos séculos, em virtude do alto grau de analfabetismo.

Nesses casos, o responsável pela produção do assento ou documento escrevia o nome pela pessoa analfabeta, e esta apenas interpunha uma cruz entre seu nome e sobrenome (apelido, como se diz em Portugal). Dessa forma, a caligrafia da assinatura será evidentemente a da pessoa que redigiu o citado documento, caso este tenha sido manuscrito. O assento de batismo de minha tia-avó Maria da Natividade, que se vê a seguir, demonstra esse costume. Observe que o padrinho Júlio de Araújo assinou “de cruz”.

Batismo de Maria da Natividade
Batismo de Maria da Natividade – 4/04/1859 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Aqui a transcrição:

Aos 17 dias do mês de abril do ano de 1859, eu, Antonio Rodrigues Pinheiro, abade colado nesta igreja de Nossa Senhora da Assunção da freguesia de Barcos, nela solenemente batizei a Maria da Natividade, nascida no dia quatro deste mês, filha legítima de Manoel de Araújo Motta e de Luísa de Macedo, sendo primeiro matrimônio da parte de ambos, naturais desta freguesia, neta paterna de Júlio de Araújo e de Maria Rita, materna de Luís José Pinto e de Antonia Theresa, desta freguesia. Foram padrinhos Damião de Macedo e sua mulher Rita Pinto, tios maternos da batizada, e testemunhas José Antonio de Araújo e Júlio de Araújo, casados, desta freguesia, e para constar assinam este termo que eu fiz era ut supra. O abade Antonio Rodrigues Pinheiro – Júlio + de Araújo

Outro costume era a assinatura “a rogo”, quando outra pessoa assinava a pedido daquela que não sabia escrever. O seguinte assento de batismo, de uma antepassada direta de seis gerações, exemplifica esse costume.

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Batismo de Maria Joana – 5/01/1778 – São Mamede de Ribatua, Alijó, Vila Real

Aqui a transcrição:

Maria Joana, filha legítima de Francisco Pinto e sua mulher Anna Maria Gonçalves, neta pela parte paterna de Manoel Pereira e sua mulher Maria Pinto, e pela parte materna de Antonio Gonçalves Laijinha e sua mulher Beatriz Cardoso, todos do lugar de Safes, desta freguesia de São Mamede de Ribatua, nasceu aos 30 dias do mês de dezembro do ano de 1777 e foi batizada e ungida com os santos óleos por mim, o padre Manoel Antonio Teixeira, coadjutor desta freguesia aos 5 de janeiro de 1778. Foram padrinhos Bernardo de Figueiredo e sua filha Maria Anna. E para constar fiz este termo e assinou o padrinho pela madrinha não saber ler nem escrever. Assinei por ela mês e ano ut supra. –  o coadjutor Manoel Antonio Teixeira

Nesse assento, o padrinho Bernardo de Figueiredo assinou por sua filha Maria Anna, madrinha da criança. Era comum que mulheres assinassem “de cruz” ou pedissem a alguém para assinar por elas, pois, como afirmam Queiroz e Moscatel, “a alfabetização das mulheres se processou mais tardiamente que a dos homens”.

Quando temos a sorte de possuir antepassados que foram alfabetizados e deixaram registros escritos “de próprio punho”, podemos afirmar que recebemos deles uma herança preciosa, pois muitas vezes a forma de escrever foi tudo o que de mais pessoal a respeito deles chegou até nós, especialmente se viveram antes da invenção da fotografia ou não possuíam condições para ter seu retrato pintado.

A assinatura abaixo, por exemplo, é o registro mais pessoal que chegou a mim de meu bisavô paterno Luis Gonçalves Rebosa. Foi extraída de seu assento de casamento.

Casamento de Luis Gonçalves

Segundo Queiroz e Moscatel, quando tudo o que temos é uma assinatura, podemos, pela análise de seu grau de desenvoltura, apenas inferir o nível de escolarização de seu proprietário. Quando encontramos produção textual manuscrita de maior volume e recente (a partir do fim século XIX), podemos contratar uma análise grafológica e descobrir mais a respeito do caráter de nossos antepassados. Seria uma forma interessante de darmos voz a alguém quem não nos legou outro indício de sua personalidade.


José Araújo é linguista e genealogista amador.