Falantes

Conquanto à luz das ciências naturais os mortos não possam falar, à luz da genealogia podemos, sim, dar voz a antepassados que faleceram há centenas de anos, tentando entender o que desejavam, que valores morais ou espirituais possuíam e que princípios traçavam para suas vidas. É o que tenho tentado fazer em minhas pesquisas sobre um primo de minha trisavó sobre quem tenho me dedicado há algum tempo.

Esse primo se chamava José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870) e já dediquei alguns textos a ele aqui no blog em que tento reconstruir sua história. O período mais interessante de sua vida parece ter sido o de sua passagem pela Universidade de Coimbra (UC), na qual foi admitido em 1815, segundo o registro de matrícula encaminhado pela instituição, sobre o qual já havia tratado em outro texto.

Em 5/09/1888, o jornal Campeão das Províncias publicava uma matéria sobre “três antigos jornalistas em Portugal” e menciona que José Pinto, em janeiro de 1821, quando ainda era estudante de medicina, havia colaborado com Antonio Luiz de Seabra, visconde de Seabra, na edição do Cidadão Litterato: periodico de politica de litteratura, que tinha como objetivos a divulgação dos ideais e princípios do regime liberal e a contribuição para seu aperfeiçoamento. O trecho da matéria pode ser visto abaixo.

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Campeão das Províncias – 5/09/1888

Segundo Manuel Alberto Carvalho Prata,

logo na Introdução, os responsáveis deste periódico, comungando na ideia, vinda já do iluminismo, de que a cultura tinha uma função emancipadora, reconhecem que o homem tem o direito de ser feliz, que a ignorância é uma fonte para os seus males e que o aperfeiçoamento do homem influi no aperfeiçoamento da sociedade e dos governos, pelo que “um povo ignorante jamais poderá ser um povo livre”. Daí a aposta na ilustração do “cidadão”, ajudando-nos assim a compreender o título escolhido.

Entre 1822 e 1823, ainda estudante de medicina da UC, José organizou e redigiu o Censor Provinciano: Periódico Semanário de Philosofia, Política e Literatura, no qual, entre outros assuntos, dirigiu fortes críticas aos docentes apartados da realidade e mais preocupados com as faltas dos alunos, aos métodos de ensino e livros arcaicos adotados pela instituição. A pequena imprensa radical estudantil da UC a que José Pinto pertencia chegou mesmo a propor a extinção da universidade, como comenta Luís Reis Torgal (v. p. 83).

Essa imprensa e seus responsáveis, no entanto, foram alvo de um duro golpe após a Vila-Francada, um ano após a morte do reitor-reformador, quando foi criada uma Junta Expurgatória que expulsaria professores e alunos de todas as faculdades sob as acusações de liberalismo exaltado, constitucionalismo, maçonismo, maus costumes, impiedade e insuficiência literária. Em 1824, José Pinto Rebelo de Carvalho foi expulso por unanimidade da universidade pela dita Junta Expurgatória “para não ser mais a ela admitido”, como se lê na averbação na margem do registro de matrícula reproduzido abaixo.

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Matrícula de José Pinto Rebello de Carvalho – Fonte: Arquivo da Universidade de Coimbra

Mas ele não seria o único, pois outros 457 estudantes também foram expurgados, além de 50 professores que foram “preteridos, demitidos, presos, deportados ou sequestrados os seus ordenados”, como registra a pesquisadora Maria de Lourdes Lima dos Santos. José Pinto, como já comentei, buscaria o exílio inicialmente na Inglaterra e depois se estabeleceria na França, onde estudaria Ciências Físicas e Naturais na Sorbonne, e finalmente se doutoraria em Medicina na Universidade de Louvain, Bélgica, antes de retornar a Portugal, após os expurgos, para se dedicar à política em sua cidade natal de Tabuaço.

Como se pode observar neste breve levantamento, pude recuperar a voz de José Pinto Rebello de Carvalho por meio de um registro acadêmico, de uma nota de jornal, de um verbete da Wikipédia, de um periódico que ele editou e também de alguns estudos acadêmicos contemporâneos que trataram do período em foco e que mencionaram José como um membro ativo dos eventos que ocorriam naquele momento.

Em todos esses registros, a voz que escuto é a de um homem ativo em seu momento histórico, corajoso e tão fiel a seus princípios que não hesitou em abandonar seu país e sua família para não capitular diante de seus opositores. Ainda falarei mais sobre ele.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

3 comentários sobre “Falantes

  1. […] mencionei os assentos paroquiais, as fotografias e cartas familiares, os registros militares, os periódicos e as cartas régias. Todas são consagradas, embora não exclusivas para esse tipo de pesquisa, […]

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  2. […] é a de que Custódio e José estudaram na mesma instituição mais ou menos no mesmo período, embora este tenha sido expulso justamente no ano em que aquele estudava o primeiro ano. Já sabemos que a diferença de idade […]

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