Barcos

Conhecida atualmente como aldeia vinhateira, Barcos foi, entre 1263 e 1855, sede de concelho (município), “integrando as freguesias de Adorigo, Barcos, Santa Leocádia e Santo Adrião”, como se informa no site da sede atual, o município de Tabuaço, em Viseu. Com pouco menos de 10 km² e menos de 600 habitantes, essa pequena povoação foi a origem da família de meu avô paterno Antônio (1868-1946) e local de onde ele partiu com sua primeira família para o Brasil.

barcos
Barcos, Tabuaço, Viseu – Fonte: Google Maps

Embora eu tenha descoberto muito sobre meus antepassados de Barcos, sobre a aldeia propriamente dita não havia conseguido encontrar muita informação além da que apresentei acima e de uma ou outra menção, principalmente em assentos de óbito, aos números das casas e aos nomes das ruas onde meus parentes haviam vivido. Embora esse tipo de informação seja útil, sua utilidade geralmente só se faz evidente quando é possível encontrar mapas antigos das localidades, pois não apenas os nomes das ruas, mas também seus traçados podem mudar ao longo dos séculos.

Porém minha sorte parece ter mudado quando encontrei uma referência histórica interessante sobre a vila e sua população em uma pequena obra escrita por um parente indireto sobre o qual já falei várias vezes aqui no blog. O parente é José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), e a obra é o ensaio A Carta e as Cortes, cuja capa se vê na imagem abaixo.

CARTACORTES

Nessa obra, provavelmente escrita quando ele se encontrava exilado na França (“nam é possível fazermôllas na ermida em que vivemos ha mezes, no fundo dos Pyrenneos”, ele escreve na página 32), durante a guerra civil (1828-1834) que pôs em lados opostos o liberal Pedro I e seu irmão absolutista Miguel, José Pinto faz uma crítica ferina às cortes que retiraram a regência de Isabel Maria pela infanta Maria da Glória (Maria II), filha d. Pedro I, herdeira do trono português após a abdicação de seu pai, dando-a a Miguel, tio desta e suposto futuro marido.

Após a defesa de seu ponto de vista sobre as falhas da composição das cortes e seu alerta para a composição de futuras cortes com vista à prevenção dos erros cometidos, José Rebello apresenta observações a respeito da divisão do território português, que ele caracteriza como “verdadeiro cáos” (p. 45). Em uma nota ao pé das páginas 47 e 48, ele exalta as qualidades de sua terra natal, a vila de Barcos, e de seus moradores. O trecho é parcialmente transcrito abaixo, com meus destaques.

Barcos, além de sua posiçam muito mais central, e cómmoda, nesta divisam, aliás geographica do territorio […] alem de ter sido a capital do Districto nas ultimas Eleiçoes […] e a capital da mesma Taboaço no ecclesiastico e militar […] se tem feito tanto mais digna de ser a capital do Districto a todos os respeitos, como devem ser uniformemente todas as Capitaes, que sua lealdade á legitima Soberana, e ao systema Constitucional, não é equívoca… tendo sido muitas vezes invadida por superiores forças dos rebeldes, saqueada, e incendiada, e perseguidos seus moradores, um só dos quaes nam tem adherido ao usurpador, quando Taboaço tem tido grande parte nestes e outros horrorosos attentados, contra a legitimidade do throno e liberdade e existencia de seus vizinhos […]

Na obra Influence du Ministère Anglais dans L’Usurpation de Don Miguel, atribuída ao mesmo José Pinto Rebello e publicada na França em março de 1830, lê-se, em nota de rodapé à página 21, o seguinte trecho ao qual acrescentei destaques:

Les journaux publient aujourd’hui de nouvelles dévastations en Portugal: mais par malheur, quand ils parlent de ce pays, ils confondent tout, même quand ils veulent défendre la bonne cause. Les bandes de voleurs qu’on dit ravager nos provinces, ont existé dès le jour de l’arrivée de l’Usurpateur, qui a excité la populace, l’a armée et l’a déchaînée contre tous les propriétaires et les honnêtes gens, lui ordonnant de voler, d’incendier, de piller et d’assassiner……. Ce sont ces brigands qui se nomment Royalistes, et, ne voulant pas travailler, vont de bourg en bourg, de village en village, se livrant à tous les excès. Il n’y a pas d’autre voleurs, eux seuls sont armés, à eux seuls tout est permis; le reste de la population est terrifié ou dans les cachots. Ils mettent aux fers qui bon leur semble; ils nomment ou destituent les administrateurs et la justice. A l’egard du pillage du bourg Taboaço, sur le Doiro, il doit être faux: ce bourg a une horde de ces brigands qui ont dévasté les environs. Ils est plus probable que tel aura été le sort de notre patrie, le bourg de Barcos, voisin de celui-là, dévasté, saccagé, incendié plusiers fois par ces bandits qui, sans compter les meurtres qu’ils ont commettent chaque jour, ont eu la cruauté d’enterrer un homme tout vif!!! Voilà les héros de la Quotidienne!

Aqui minha tradução livre:

Os jornais publicam hoje sobre novas desgraças em Portugal, mas, infelizmente, quando eles falam sobre este país, confundem tudo, mesmo quando eles querem defender a boa causa. Os bandos de ladrões que dizem assolar nossas províncias, existem desde o dia da chegada do Usurpador, que atiçou a população, o exército contra todos os proprietários e as pessoas honestas, dando a eles ordem para roubar, queimar, pilhar e assassinar……. Estes são os bandidos que chamam Monarquistas, e, não querendo trabalhar, vão de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, entregando-se a todo tipo de excesso. Não há outros ladrões, só eles estão armados, só a eles tudo é permitido; o resto da população fica aterrorizada ou nas masmorras. Eles aprisionam quem bem quiserem; eles nomeiam ou destituem administradores e juízes. Sobre o saque da cidade de Tabuaço no Douro, isso não deve ser verdade: nessa cidade há uma horda desses bandidos que devastaram a área. É mais provável que esse tenha sido o destino de nossa terra natal, a aldeia vizinha de Barcos, devastada, saqueada, queimada diversas vezes por esses bandidos que, sem contar os assassinatos que cometem todos os dias, tiveram a crueldade de enterrar um homem vivo!!! Estes são os heróis do la Quotidienne!

Resta evidente que a soberana mencionada no primeiro trecho seria a infanta Maria da Glória – ou sua tia e regente Isabel Maria – e que as forças rebeldes seriam fiéis a d. Miguel,  que ele qualifica como usurpador também no segundo trecho, uma vez que este ocupou o trono que, por direito, seria de sua sobrinha Maria II. A grande descoberta, alcançada a partir desses trechos, foi sobre as tribulações que a pequena Barcos e seus moradores sofreram por seu apoio à causa liberal e à monarquia constitucional (não absolutista) de d. Pedro I(V). Essa informação não é encontrada em nenhuma outra fonte consultada até o momento. Certamente José Rebello foi um dos moradores perseguidos – a quem se faz menção no primeiro trecho -, razão pela qual ele deve ter ido para a mencionada “ermida […] no fundo dos Pyrenneos”.

A rota de fuga de José Rebello para o exílio é um de meus objetos de investigação. Como informa Vitorino Nemésio, os proscritos fugiram de barco, e José deve ter estado entre eles, pois registrou em poema o momento de seu embarque.

exilados

O primeiro porto de parada dos exilados foi Plymouth, Inglaterra, porém alguns foram em seguida para a França, e Bayonna, cidade onde José Rebello publicou A Carta e as Cortes, é Bayonne, cidade no sudoeste francês, mas ainda não encontrei registros de sua chegada a essa cidade.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

3 comentários sobre “Barcos

  1. […] e, talvez devido a perseguições políticas, muito embora o local lhe fosse favorável, pois sempre se debateu pelo liberalismo, teve de fugir com a filha para o Brasil, onde foi hospedar-se em casa dum amigo, advogado […]

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