Nobreza

Dona Maria Adelaide Sá Menezes faleceu na idade de 51 anos, sem receber os sacramentos, em 15 de julho de 1878, em Barcos, Tabuaço, Viseu. Reza a lenda local que seu corpo não apresentava sinais de decomposição mesmo 38 anos depois, o que teria originado um culto à sua santidade.

Tudo isso já seria bastante surpreendente se esse personagem de minha árvore familiar não apresentasse outro detalhe fascinante: o status de sua família paterna. Esse detalhe já poderia ser observado no tratamento dispensado a ela, afinal apenas mulheres de certo status social eram chamadas de dona. Mas qual seria a origem desse status?

O assento de nascimento de Maria Adelaide, visto abaixo, não parece trazer muitas indicações além do fato de ela ser sobrinha e afilhada de José Pinto Rebello de Carvalho, personagem fascinante na História da Guerra Civil portuguesa (1828-1834) e, segundo se diz, membro de importante família local. Por outro lado, nesse assento o pároco não dispensa nenhum tratamento especial aos pais de Maria Adelaide, embora o faça à avó paterna dela.

Maria Adelaide
Batismo de Maria Adelaide – 22/03/1826 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Aqui a transcrição:

Aos 22 dias do mês de março do ano de 1826, nesta igreja de Nossa Senhora da Assunção e colegiada de Barcos, batizei solenemente e pus os santos óleos a Maria Adelaide, que tinha nascido a 21 de fevereiro do dito ano, filha de José de Menezes e Sá, natural do Terrenho, e Theresa Amália, natural desta freguesia de Barcos, sendo primeiro matrimônio da parte de ambos. Neta paterna de Isidoro de Almeida e D. Anna Ermelinda do Terrenho, freguesia da Torre, e pela materna neta de José Pinto do Souto e Bárbara Ribeiro, desta freguesia. Foram padrinhos o Bacharel José Pinto Rebello de Carvalho, tio da batizada e sua mulher Maria José Adelaide Ferreira Pinto e, com procuração destes [] Manoel Pinto de Serqueira de [] e sua mulher Rita [] desta vila. Foram testemunhas o padre sacristão Antonio Duarte […]

Já no assento de óbito da mãe de Maria Adelaide, o tratamento cerimonioso ressurge, como se vê abaixo.

PT-ADVIS-PRQ-PTBC03-003-0003_m0003_Óbito de Theresa Amália
Óbito de D. Theresa Amália – 9/05/1862 Barcos, de Tabuaço, Viseu

Aqui a transcrição:

Aos nove dias do mês de maio de 1862, às duas horas da noite, na casa da Rua da Cainha desta freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Barcos, concelho de Tabuaço, distrito eclesiástico de Barcos, diocese de Lamego, faleceu D. Theresa Amália, costureira, da idade de 76 anos, viúva de José de Menezes, natural e paroquiana desta freguesia, filha legítima de José Pinto Rebello do Souto e Bárbara Ribeiro, naturais desta freguesia, neta paterna de Antonio Pinto Cirurgião e Maria Josefa, esta natural de Tabuaço, aquele desta freguesia de Barcos, e materna de Manoel Fernandes, natural desta freguesia, e Luisa Ribeiro, da freguesia de Tabuaço. Não fez testamento, deixou filhas. Recebeu os sacramentos da penitência, da eucaristia e não recebeu extrema-unção por não darem aviso. Foi sepultada no dia dez do supradito mês e ano na igreja desta freguesia. E para constar lavrei este assento em duplicado que assinei. Era ut supra. – o presbítero abade Antonio Rodrigues Pinheiro

As pistas encontradas, portanto, parecem sugerir que o status de Maria Adelaide tivesse origem na família de seu pai – José de Menezes Sá Almeida, filho de “Isidoro de Almeida e D. Anna Ermelinda do Terrenho, freguesia da Torre”, segundo informado no assento de batismo apresentado. Os arquivos paroquiais do Terrenho, em Trancoso, na Guarda, estão disponíveis, portanto seria apenas uma questão de ir buscá-los. Mas a informação mais preciosa não veio exatamente dos assentos paroquiais, e sim do Nobiliário de Famílias de Portugal, de Felgueiras Gaio, que está disponível on-line graças a uma iniciativa da Biblioteca Nacional de Portugal. No segundo tomo dessa obra, na página 154, foi encontrado este registro:

nobiliario
Nobiliário de Famílias de Portugal

Trata-se de um ramo da família do pai de Maria Adelaide. Nesse texto é possível descobrir que o sobrenome (apelido) da família era maior – Menezes de Almeida Sá Amado – e que era justamente pelo último sobrenome que a família era conhecida. José de Menezes era, portanto, um digno representante da família dos Amados, cujas origens remontam ao século XIII, segundo se lê na página 141 da mesma obra.

amados
Nobiliário de Famílias de Portugal

Embora não fosse nobre, Maria Adelaide tinha profundas raízes familiares na nobreza de Portugal. O que mais essa personagem controversa não revelará à medida que a pesquisa avançar?


José Araújo é linguista e genealogista amador.

1 comentário

  1. […] à nobreza”, como explicam Queiroz e Moscatel. A distinção, no entanto, como expliquei em outro texto, era, sim, por nobreza, mas de seu marido, pois o alferes José de Menezes Sá Almeida, seu marido, […]

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