Judeus

Tenho observado que o texto que mais atrai leitores aqui no blog é aquele em que falo dos judeus sefarditas e da lei que lhes permite a aquisição da cidadania portuguesa caso comprovem a ascendência até aquela comunidade tão perseguida em séculos passados. Ocorre que, mesmo depois de ter publicado o texto, ainda recebo consultas de conhecidos a respeito das listas de sobrenomes (apelidos) portugueses supostamente judaicos que volta e meia são divulgadas nas redes sociais.

Não custa insistir: essas listas não servem para nada. Apenas uma pesquisa genealógica que avance além do século XX e encontre evidências de perseguição pelo Tribunal do Santo Ofício (1536-1821) poderia comprovar a ascendência judaica. Os arquivos que permitem comprovar essa perseguição estão digitalizados e disponíveis na Torre do Tombo (consulte aqui índices da Inquisição de Lisboa).

Para escapar das perseguições, os cristãos-novos adotavam sobrenomes patronímicos como Nunes, Rodrigues e Simões e assim se tornavam indistinguíveis da maioria cristã. Segundo Queiroz e Moscatel, a comprovação de ascendência judaica por meio do sobrenome só poderia ocorrer nos seguintes casos:

  • de sobrenomes de incontestável origem judaica: Abecassis, Aflalo, Bensaúde, Saragga, Seba ou Ser(r)uya (veja uma lista mais extensa neste texto de Manuel Abranches de Soveral);
  • de sobrenomes pouco comuns que pesquisas associam a cristãos-novos: Loza e Ranito;
  • de sobrenomes comuns cuja combinação é incomum, está associada a uma localidade e há estudos que comprovam sua origem judaica: Sá Leão.

Isso deveria encerrar a questão a respeito das tais listas de sobrenomes e nos abrir os olhos para outro aspecto: os nomes. Até que houvesse ampla perseguição, era comum que os judeus dessem a seus filhos nomes do Antigo Testamento como Abraão, Isaac, Jacob e Salomão. Encontrar esses nomes entre registros de antepassados seria, portanto, uma pista interessante.

Sinagoga

Sinagoga do Castelo de Vide – Por José Luis Filpo Cabana – Obra do próprio, GFDL

Infelizmente, essa prática foi abandonada pelos cristãos-novos por razões óbvias. Da mesma forma como a perseguição os levou a ocultar suas origens e antepassados, declarando-os como incógnitos, para escamotear seu vínculo com comunidades e familiares judeus.


José Araújo é linguista e genealogista amador.