Hipóteses

Toda boa pesquisa deve começar com uma hipótese ou ao menos com uma pergunta. Assim deve ser também com a pesquisa genealógica, mesmo que as hipóteses ou perguntas não estejam todas formalmente descritas. O caso que passo a descrever envolve um personagem sobre quem já escrevi muitas vezes aqui no blog e de quem certamente ainda terei muito a dizer – José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), natural de Barcos, primo de minha trisavó e exilado durante a Guerra Civil portuguesa (1828-1834).

O exílio de José Rebello e sua produção durante esse período foram abordados em diversas obras históricas e acadêmicas e foi precisamente em uma obra deste segundo tipo – Oudinot Larcher Nunes, Fernando Augusto. A carta constitucional e os inícios da câmara dos pares em Portugal (1826-1836).  Prom. : Delpérée, Francis ; Servais, Paul – que encontrei uma referência interessante, a qual transcrevo abaixo, com meus destaques.

Assim, entre outros, publicam também peças doutrinárias, em Londres, Custodio Rebello de Carvalho e José Ferreira Borges, e em França o doutor em medicina José Pinto Rebello. (p. 356)

Esse curto parágrafo cita dois personagens exilados durante a Guerra Civil que possuem o mesmo sobrenome – Rebello de Carvalho. A hipótese que me ocorreu no momento em que encontrei essa referência poderia ser descrita como “eles possuíam um grau de parentesco (irmãos, sobrinho-tio, primos)”. A etapa seguinte envolveria encontrar evidências que me permitissem confirmar ou negar essa hipótese.

A árvore familiar de José Pinto Rebello de Carvalho está bem desenvolvida, e até o momento consta que ele tenha tido apenas cinco irmãos: Theresa Amália (1786-1862), Antonio (1787-1864), Caetano (1792-1876), Ellena (1811-1872) e Bernardo. Com exceção de Antonio e Ellena, que não se casaram nem deixaram descendentes, foram encontrados registros de casamentos e descendentes dos demais irmãos e não há registro de um Custódio entre eles. Não foram encontradas informações similares sobre Bernardo, portanto ele poderia ser o pai de Custódio. Essa linha de investigação ficou aberta por algum tempo.

Segundo o Diccionario Bibliographico de Innocencio Francisco da Silva, Custodio Rebello de Carvalho foi bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra e natural do “concelho de Filgueiras, districto do Porto”, tendo nascido “a 30 de Septembro de 1808”. Essa referência sugere, portanto, duas possíveis fontes de informação sobre ele: os arquivos da Universidade de Coimbra e os arquivos paroquiais de Filgueiras.

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Diccionario Bibliographico de Innocencio Francisco da Silva (tomo segundo, página 114)

O fato de Custódio não ser natural de Barcos – freguesia de origem da família de José Pinto Rebello – não deveria ser um impedimento à continuidade da pesquisa, pois aquele poderia ter nascido em outra localidade em função de uma viagem de seus pais. Eis outra linha de investigação que ficaria aberta por algum tempo.

Os arquivos da Universidade de Coimbra forneceram informações valiosas sobre o bacharel Custódio n’ A Relação e Indice Alphabetico dos Estudantes Matriculados […] no Anno Lectivo de 1824 para 1825. A primeira informação valiosa está na página 10 dessa publicação, onde se lê que Custódio, estudante do “Segundo Anno Juridico”, era filho de “Francisco José Rebello”, natural de Santão, Comarca de Penafiel”. A segunda informação valiosa é a de que Custódio e José estudaram na mesma instituição mais ou menos no mesmo período, embora este tenha sido expulso justamente no ano em que aquele estudava o primeiro ano. Já sabemos que a diferença de idade entre os dois era de aproximadamente 20 anos, o que não inviabilizaria o parentesco e poderia mesmo sugerir que José de alguma forma possa ter atuado como um mentor para o jovem Custódio nas questões liberais que acabariam por forçá-los ao exílio durante a já citada guerra.

Outra pista surgiu a partir do nome do pai de Custódio – Francisco José Rebello -, que é bastante semelhante ao de um tio paterno de José: Francisco José Pinto (do Souto), casado com Luisa Maria de Macedo e filho do cirurgião Antonio Pinto Rebello. Uma interpretação apressada poderia dar essa evidência como conclusiva para o parentesco entre Custódio e José, mas precisamos lembrar que a evidência definitiva poderia vir apenas da análise de fontes paroquiais.

A fonte da Universidade de Coimbra informava que Custódio era natural de natural de Santão, Comarca de Penafiel, mas o Diccionario Bibliographico informava algo diferente: “Filgueiras, districto do Porto”. A pesquisa paroquial permitiu descobrir que Custódio era natural da freguesia de Santão, do concelho de Felgueiras, no distrito do Porto. Sua data de nascimento diferia da informada no Diccionario: 30 de setembro, mas de 1805, não 1808. Seu assento de batismo foi encontrado e pode ser visto abaixo.

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Batismo de Custódio – 30/09/1805 – Santão, Felgueiras, Porto – pág. 1
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Batismo de Custódio – 30/09/1805 – Santão, Felgueiras, Porto – pág. 2

Aqui a transcrição:

Custódio, filho legítimo de Francisco José Rebello e de sua mulher Maria Caetana, do lugar do Hospital desta freguesia de Santão, [isento de multa], neto paterno de Manoel Teixeira e de sua mulher Maria Josefa, e materno de Francisco Pereira e de sua mulher Rosa Maria, desta desta freguesia, e aqueles da de Figueiró, nasceu no dia 30 de setembro do presente ano de 1805, e no mesmo dia, mês e ano foi batizado solenemente nesta igreja de Santão por mim, frei Ignácio José Leite de Carvalho, pároco dela, e lhe pus os santos óleos. Foram padrinhos Francisco Pereira, avô do batizado, e Joana, solteira, tia do batizado, e por verdade fiz este termo, que assinei e pela madrinha, dia, mês e ano era ut supra.

A partir desse registro, poderíamos concluir que Custódio não seria parente de José, pois a mãe daquele era Maria (Rosa) Caetana, e não a já citada Luisa Maria de Macedo, mulher de Francisco José Pinto (do Souto). Novamente, seria uma decisão precipitada, pois Francisco José Pinto (do Souto), parente de José e possível pai de Custódio, poderia ter tido outro casamento até então não descoberto.

A pesquisa teria de avançar mais, para além dos pais de Custódio, e, na árvore abaixo, apresento o resultado dessa pesquisa pelos assentos paroquiais das freguesias de Santão e de Santiago de Figueiró, esta no concelho de Amarante, também no distrito do Porto.

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Árvore de Custódio Rebello de Carvalho

Essa nova e detalhada pesquisa evidenciou que não havia parentes em comum entre Custódio e José até os trisavós de ambos, o que, se não permitiu descartar a hipótese de um parentesco distante entre eles, não revelou nenhum parentesco imediato. Ficaram, porém, definitivamente descartadas duas possibilidades que estavam em aberto: a de Custódio ser filho de Bernardo, irmão de José Pinto, e a de que tivesse nascido durante uma viagem de seu suposto pai, tio de José.

Tratou-se, portanto e possivelmente, de uma coincidência de sobrenomes comuns e não relacionados entre dois personagens que participaram do mesmo momento histórico com destinos similares. Apenas a pesquisa detalhada em fontes documentais diversas permitiu constatar essa apenas provável coincidência. Assim deveria ocorrer com qualquer pesquisa genealógica.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

1 comentário

  1. […] toda pesquisa deve começar com uma hipótese ou ao menos algumas perguntas, eis o que mais eu queria […]

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