IA

De quem parte, usualmente se diz, fica a lembrança. No entanto, bem sabemos, lembranças e heranças, quando é o caso, são objetos de partilha. E de maneira consensual ou litigiosa, os despojos daquele que partiu são distribuídos entre os familiares. Inevitavelmente, alguns bens, por serem investidos de uma dimensão simbólica e afetiva, ficam sob a tutela do guardião do “museu familiar”. Entre esses bens, fotografias isoladas ou reunidas num álbum apresentam a qualidade de ser um dos mais preciosos “lugares da memória” familiar. | Nelson Schapochnik, Cartões-postais, álbuns de família e ícones da intimidade. In: Nicolau Sevcenko e Fernando A. Novais (Orgs.). História da Vida Privada no Brasil – Volume 3: República: da Belle Époque à Era do Rádio

A onipresença das câmeras fotográficas em aparelhos de telefonia móvel (celulares ou telemóveis) vulgarizou o registro de eventos familiares que no passado eram revestidos de maior cerimônia. Se hoje a fotografia é encarada como algo trivial, antes exigia não só o investimento financeiro – pois as máquinas fotográficas custavam caro – e de tempo – pois era necessário esperar a revelação do filme. Por essas razões, era normal que o modelo quisesse apresentar-se ao fotógrafo em sua melhor aparência. É isso o que costumamos ver em álbuns de família mais antigos, verdadeiros tesouros para a pesquisa da história familiar.

Não obstante seu valor atual, esses objetos preciosos foram vítimas de dois comportamentos que reduziram ou puseram a perder seu imenso valor. Por um lado, houve casos em que as fotografias foram simplesmente afixadas em suportes inadequados, sofrendo desgastes por causa da umidade, da oxidação e mesmo o ataque de insetos. Além disso, pode não ter havido um mínimo esforço de catalogação que indicasse quem eram as pessoas retratadas, onde ou quando ocorreu o registro. Nesses casos, tudo o que se pode fazer é contar com a memória dos parentes que ainda se lembram da história da família para reconstruir o passado com base nas imagens que sobreviveram. Por outro lado, e tragicamente, há casos em que todo o acervo fotográfico familiar foi eliminado após o falecimento de um antepassado ou foi perdido entre mudanças de residência.

Para o segundo caso, infelizmente, não haverá solução se o acervo era único. Para o primeiro caso, principalmente se os registros fotográficos ainda estão boas condições, mesmo sem a catalogação necessária, pode haver solução – ainda que parcial. Um dos problemas com que me defrontei na pesquisa das fotografias de família pode servir de exemplo aqui. As cópias digitais das fotografias que consegui com meus parentes estavam em bom estado, porém não havia informações sobre quando os originais foram produzidos ou sobre a idade dos retratados na época em que foram fotografados. Tudo o que posso afirmar é um período bem amplo – primeira metade do século XX. Para ilustrar o processo que segui, vou usar a fotografia de meu avô paterno, que pode ser vista abaixo.

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Antonio M. P. de Araújo

À primeira vista, é possível imaginar que o retratado tivesse entre 40 e 50 anos na época do registro, mas ainda assim seria um intervalo de tempo considerável para atribuirmos uma data, pois, considerando que ele nasceu em 1868, a fotografia poderia ter sido produzida entre 1908 e 1918. Diante da impossibilidade de recorrer à memória de meus tios, que só nasceram após 1918, ano em que meu avô e minha avó se casaram, decidi recorrer a uma tecnologia que hoje está à nossa disposição: a inteligência artificial – IA.

A tecnologia de IA que utilizei está disponível on-line para uso gratuito e se chama API de Detecção Facial. Ela permite obter principalmente duas informações: o sexo da pessoa retratada, com grande acuidade, e sua idade, com acuidade bem menos confiável. Ainda assim, é um recurso que podemos utilizar na falta de fontes de informação direta e que, conjugado com dados documentais, poderá nos permitir maior aproximação da realidade. Veja abaixo o resultado da análise da fotografia de meu avô em dois endereços que supostamente empregam a mesma tecnologia de IA.

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Estimativa por Reconhecimento Facial

O primeiro resultado, obtido no site do How Old do I Look?, identificou corretamente o sexo do retratado e supôs que ele teria 46 anos à época. O segundo resultado, bem mais complexo, pois se propõe até a fazer uma interpretação das emoções do retratado, obtido diretamente no site da API de Detecção Facial, também identificou corretamente o sexo, porém atribuiu ao retratado quase 50 anos. É uma diferença pequena, portanto posso supor que meu avô tivesse 50 anos na época em que foi fotografado. Essa, então, deveria ser essa sua aparência quando conheceu e se casou com minha avó, que na época era uma bela jovem de 18 anos e fascinantes olhos verdes, segundo me revelou uma tia paterna.

A IA ainda não é precisa para podermos usá-la sem critérios. Para maior precisão, recomendo o uso de fotografias não muito escuras e nas quais o retratado seja visto de frente. Fiz alguns testes e vi erros grosseiros, porém acredito que, combinada com outras fontes indiretas, essa seja uma ferramenta útil para a recuperação do valor de nossos acervos fotográficos familiares.


José Araújo é linguista e genealogista amador.