Alcunhas

“Cada português carrega consigo, para onde quer que se desloque, um índice de sua árvore genealógica”. | Os Apelidos Portugueses: um panorama histórico – Carlos Bobone

Alcunha, segundo o dicionário Priberam, é o termo que qualifica uma pessoa em função de alguma particularidade física ou moral atribuída a ela. É o que no Brasil se chama de apelido. Um homem de cabelos louros pode ser chamado de galego, enquanto uma que está acima do peso costuma ser chamada de gordo. Em geral, a alcunha tem uso cotidiano e coloquial, não chegando a possuir registro formal em documentos, exceto, claro, quando se trata de alguma celebridade que incorpora a alcunha pessoal como parte de sua identidade. Mas nem sempre foi assim.

Carlos Bobone informa que a maior parte dos apelidos originou-se de alcunhas, dos nomes de profissões ou de invocações religiosas. Os originados de alcunhas, em especial, são de origem bastante remota, sendo sua existência registrada já no século XII, mesma época em que se encontram registros de apelidos originados de profissões.

No fim da Idade Média, quando os patronímicos já se haviam estabilizado e cristalizado, perdendo seu sentido original de filho de – um Peres podia ser filho de um Pero/Pedro, ou ainda seu neto ou descendente mais afastado -, essa forma onomástica do apelido se tornou, junto com as alcunhas, de uso característico das pessoas comuns, da qual se afastavam os que ascendiam na escala social.

Quando o uso de sobrenomes ainda não era sujeito a regras formais, era comum que uma pessoa tivesse sua alcunha identificada em registros paroquiais. Foi o que ocorreu com Antonio dos Santos (? – 1841), meu antepassado de cinco gerações, que recebeu a alcunha de morgado, termo atribuído ao filho mais velho a quem era garantido o direito inalienável de herança dos bens paternos. A atribuição dessa alcunha a José Antonio fica evidente no assento de casamento de sua filha Clara Maria, do qual se vê um trecho a seguir:

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Casamento de José Martins e Clara Maria – 9/06/1778 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Aqui a transcrição, com meu destaque:

Aos nove dias do mês de junho de 1778 anos, nesta paroquial igreja colegiada de Nossa Senhora da Assunção de Barcos, na minha presença e das testemunhas abaixo declaradas, e na forma do sagrado concílio tridentino e constituição deste bispado, contraíram de presente o sacramento do matrimônio José Martins da aldeia de Sendim, freguesia da mesma vila, de que me apresentou correntes as proclamas, e onde foi batizado, filho legítimo de Manoel Martins e Bernarda Soeira, da dita aldeia e freguesia, onde foram batizados, recebidos e estão sepultados, sendo o primeiro matrimônio da parte de ambos, e Clara Maria, filha legítima de Antonio dos Santos, o Morgado de alcunha, e de Anna da Assunção, todos naturais desta vila de Barcos, em cuja igreja foram batizados e os ditos pais foram também recebidos, sendo primeiro matrimônio […]

Mas o que era apenas alcunha para Antonio dos Santos se tornou apelido/sobrenome para seus filhos e netos, como se vê abaixo no assento de óbito de seu neto Antonio de Araújo Morgado, filho de seu filho José Morgado:

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Óbito de Antonio de Araújo Morgado – 27/09/1868 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Aqui a transcrição com meus destaques:

Aos 27 dias do mês de setembro do ano de 1868, nesta freguesia de Barcos, concelho de Tabuaço, diocese de Lamego, na casa número um, às quatro horas da tarde, faleceu, não tendo recebido sacramentos da Santa Igreja, um indivíduo do sexo masculino por nome Antonio de Araújo Morgado, de idade de 66 anos, de estado casado com Anna da Silva, natural desta freguesia, morador na rua do fundo da vila, filho legítimo de José Morgado, natural da freguesia de Adorigo deste concelho, profissão proprietário, e de Josefa de Araújo, de profissão governo da casa, o qual não fez testamento, deixando filhos e foi sepultado na igreja desta freguesia por não haver cemitério público. E para constar se lavrou em duplicado este assento que assino. Era ut supra. O abade Antonio Augusto Tavares

Casos como esse podem explicar por que hoje existem sobrenomes como Castanho, Crespo, Magro e Manso.


José Araújo é linguista e genealogista amador.