Topônimos

“Não há veleidades de progressismo ou adesão à sociedade global capazes de convencerem o português a aliviar a carga de palavras que ornamenta o seu nome.” | Os Apelidos Portugueses: um panorama histórico – Carlos Bobone

O sistema de apelidos- ou sobrenomes – português é bastante complexo, como afirmei no texto anterior. Alguns apelidos atuais derivam de nomes de pessoas que viveram há muitos séculos (Gonçalves, originado de Gonçalo, por exemplo), enquanto outros derivam de alcunhas relacionadas a características físicas (Crespo, Moreno, Ruivo) ou psicológicas (Leal, Manso, Valente) de antepassados cujos registros talvez jamais consigamos encontrar.

Outra fonte para os apelidos portugueses são os topônimos, os quais derivam de nomes de localidades onde as pessoas nasciam ou de terras que possuíam. As localidades em questão poderiam ser núcleos urbanos, rurais ou sedes de casas importantes da nobreza onde a família residia ou de onde viera. A nuvem de palavras abaixo apresenta alguns dos 100 topônimos mais comumente registrados em Portugal em 2015 segundo o Instituto dos Registos e Notariado – quanto maior o sobrenome, maior sua frequência.

sobrenomes
Fonte: Instituto dos Registos e Notariado

Carlos Bobone informa que a origem dos topônimos não é plenamente conhecida, porém já estava consolidada no século XII. Nessa época, já havia registro de uma onomástica de três elementos – nome próprio, patronímico e apelido – que, no entanto, nunca predominou. Assim encontramos cavaleiros como Vasco Gomes de Abreu, sendo Gomes o patronímico de (‘filho de’) Gomo e ‘de Abreu’ provavelmente a designação das terras que sua família possuía ou de onde ela era natural.

Nos séculos XVI e XVII, apelidos de origem toponímica já eram mais valorizados do que os patronímicos e as alcunhas, os quais adquiriram um caráter mais popular. No entanto, não se deve presumir que não existe uma relação necessária entre apelidos toponímicos e uma origem familiar nobre ou abastada. A simples migração de uma família para outra região poderia ensejar a adoção de um apelido toponímico que identificasse os recém-chegados com o nome de sua terra de origem como forma de evitar a homonímia com famílias locais da nova terra.

Uma característica comum aos topônimos é a presença da preposição de e suas variantes (do, da). Embora seja comum acreditar que um Fulano de Araújo possa ter origem nobre enquanto um Sicrano Araújo descenda de pessoas comuns, isso não é verdade. De fato, nunca houve uma regra que determinasse a forma de registrar os sobrenomes dos nobres. O mais seguro, portanto, até que se faça a genealogia, é deduzir que o Fulano de Araújo apenas descenda de um natural de uma localidade às margens do Rio Minho que se mudou para outro local onde existiam vários homônimos. Para se destacar dos outros Fulanos, ele agregou sua origem ao nome: era o Fulano que veio da localidade de Araújo, portanto era o Fulano de Araújo.


José Araujo é linguista e genealogista amador.