Trilha

Durante grande parte da busca por meus antepassados, tive a sorte de encontrá-los por meio de documentos paroquiais restritos a poucas freguesias ou cidades de Portugal: Barcos, São Mamede de Ribatua e Carrazeda de Ansiães. A vantagem disso foi que pude reconstruir os ramos paternos de minha árvore familiar por várias gerações – um deles até a nona geração. A desvantagem foi que fiquei despreparado para a realidade que encontraria nos ramos familiares maternos, em grande parte localizados no Brasil.

Por quase um ano, avancei praticamente nada nos ramos maternos, em parte porque alguns de meus bisavós eram filhos naturais com sobrenomes aparentemente não relacionados aos de suas mães e avós. Apenas para citar um exemplo, o avô materno de minha mãe se chamava Arthur Rabello Guimarães, filho natural de Julinda Dias Seabra, filha natural de Eleutéria Rosa da Conceição. Sem registros de casamento, pode ficar complicado avançar nas gerações anteriores com confiança, em especial devido à existência de homônimos. Ainda não fui além nesse ramo, como já comentei em outro texto.

Outro fato que pode ter dificultado a descoberta de documentos foi o constatação de que os antepassados nomeados nos documentos descobertos parecerem ter surgido do nada, pois a trilha de seus pais e avós simplesmente desaparecera. A hipótese mais verossímil era a de terem nascido em outras cidades ou freguesias. Mais quais freguesias? Como descobrir sem nenhuma evidência adicional em cartas, registros de desembarque ou notícias?

Esse segundo fato pareceu especialmente importante para o ramo do avô paterno de minha mãe. Eu já havia dado a questão como encerrada até que fiz a última tentativa: recorri ao Google. Usei como palavras-chave o sobrenome do avô paterno de minha mãe – Pereira Belém – e o nome da localidade a que um relato familiar pouco confiável atribuía sua origem – Bananal, que eu supunha ser em São Paulo -, e encontrei o trabalho intitulado Estratégias Familiares nos Inventários dos Soares da Silva, apresentado pelo historiador Max Oliveira no XVII Encontro de História, evento regional da Associação Nacional de História – ANPUH, que foi realizado de 8 a 11 de agosto de 2016 em minha cidade. Que coincidência!

No trabalho citado, a família Pereira Belém é apresentada por manter relações de parentesco com a família Soares da Silva nomeada no título. Trata-se de famílias proprietárias de terras e escravos, provavelmente brancas, nas quais eu não esperava encontrar meus antepassados. Após alguma troca de e-mails com o autor do trabalho, marcamos uma conversa em que ele, além de sugerir leituras sobre temas relacionados à minha busca, ofereceu documentos que foram consultados em sua pesquisa no mestrado e ainda me expôs fatos que terminaram por me orientar em direção a outras localidades – Itaguaí e Paracambi -, onde poderia haver documentos sobre meus antepassados maternos.

A busca por documentos paroquiais digitalizados dessas localidades consumiu vários dias até que, enfim, localizei a certidão abaixo, de um irmão de meu avô materno de cuja existência meus parentes vivos não tinham nenhum conhecimento.

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Certidão de Batismo de Accindino – 20/04/1889 – Bananal, Itaguaí, Rio de Janeiro , p.1
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Certidão de Batismo de Accindino – 20/04/1889 – Bananal, Itaguaí, Rio de Janeiro, p.2

Aqui a transcrição com meus destaques:

Número vinte e cinco. Aos vinte e dois dias do mês de abril do ano de mil oitocentos e oitenta e nove, neste único distrito de paz da paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, do município de Itaguaí, província do Rio de Janeiro, compareceu a meu cartório João Belém, idade trinta e cinco anos, solteiro, lavrador, brasileiro, morador nesta freguesia e declarou em, presença das testemunhas abaixo assinadas, que no dia vinte do corrente, às seis horas da manhã, nasceu de Theodora Maria da Conceição, idade trinta anos, solteira, de serviços domésticos, brasileira, moradora nesta freguesia, uma criança do sexo masculino, filho natural de ambos, o qual será batizado com o nome de Accindino. E para constar lavrei este assento que comigo escrivão assinam a rogo do declarante, por não saber escrever, Joaquim José da Costa, como testemunhas, Joaquim Barbosa dos Santos Maia e Lúcio José de Oliveira. E eu Garcia Belém Cortes escrivão que [escrevo] e assino.

Essa descoberta eliminou qualquer dúvida sobre o relato familiar a respeito da origem de meus avós e bisavós – eram de Bananal, Itaguaí, Rio de Janeiro – e forneceu dados para novas buscas a partir da estimativa de nascimento de meu bisavô João – ca. 1854 –  e de minha bisavó Theodora – ca. 1859.

A pesquisa continuará graças à valiosa orientação do historiador Max Oliveira, a quem deixo registrado meu agradecimento.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

1 comentário

  1. […] cujos proprietários (os Belém de Azeredo na geração atual) fariam parte de nossa família (os Pereira Belém). Algum tempo depois de ouvir esse relato, iniciei a busca pela possível relação entre as […]

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