Julgamento

” […] lembraria a meus colegas que não se estuda história para julgar, mas para compreender.” A Escravidão no Brasil (Como Eu Ensino) – Joel Rufino dos Santos

Essa afirmação do historiador Joel Rufino dos Santos me trouxe algum alento após uma descoberta que pôs à prova minha admiração por um parente que, mesmo sem eu jamais tê-lo conhecido, teve enorme importância para mim. 

Esse parente foi José Macedo de Araújo, tio paterno, meio-irmão de meu pai e um homem sob muitos aspectos empreendedor e que, por essa razão, deveria ser alvo de enorme admiração por parte de seus irmãos. Tanto é assim que se atribui a essa admiração a escolha de meu primeiro nome. Personagem tão importante em minha história pessoal não poderia ficar fora de minhas pesquisas, portanto dediquei a ele, até o momento, dois textos (leia aqui e aqui).

Durante as pesquisas sobre esse tio, encontrei inúmeros textos a seu respeito em jornais de várias décadas. A partir desses textos pude confirmar o que já sabia a partir de relatos familiares e também reconstruir parte de sua vida no Brasil. Infelizmente, entre esses mesmos textos havia um – na edição de número 56 de A Luta Democrática de 10 de abril de 1954, página 2 – que me causou comoção, pois representava uma imagem que não parecia corroborar tudo o que eu havia aprendido sobre ele até aquele momento.

É o texto que pode ser acessado aqui e cuja transcrição integral apresento abaixo com meus destaques.

Expulsa das Terras a Anciã:

Com 111 Anos, Perambula Perdida Pelas Matas

Inclemente a Polícia de Nova Iguaçu – Impressionantes Declarakões (sic)

Caminhando com dificuldade, a anciã chegou até a mesa do repórter e disse: – Moço, a polícia invadiu minha casa, quebrou tudo e botou toda a minha família na rua, inclusive minha mãe com 111 anos de idade.
O repórter puxou uma cadeira e ela então identificou-se: Chamo-me Valeriana Viana dos Santos, viúva, com 52 anos. Tenho 10 filhos, dois menos. Minha mãe vive comigo. Ela é do tempo ainda da escravidão. Mas a escravidão parece que ainda continua em Riachão, Nova Iguaçu, na Estrada Presidente Dutra, quilômetro 24. Meu finado marido, João dos Santos Barbosa, durante muitos anos ocupou, com a família, terras situadas neste local, com um contrato assinado com o proprietário Balbino Joaquim Ribeiro. Nós plantávamos frutas, principalmente laranjas, e o lucro era repartido com Balbino.
Tudo corria às mil maravilhas até que meu marido morreu. Balbino, que muito o estimava, ficou apaixonado e vendeu as terras a José Macedo de Araújo, português residente em Nova Iguaçu.

E AÍ COMEÇOU A NOSSA DESGRAÇA

O contrato de repartirmos os lucros continuou com o novo proprietário. Entretanto, uma inovação surgiu: Macedo carregava todas as laranjas para vender fora. Dava uns vales para nós recebermos depois. E até hoje não pagou vale nenhum. Reclamamos. Foi o quanto bastou para que o Sr. Macedo conseguisse com um juiz uma ordem de despejo, já que habitávamos terras que não nos pertencia (sic). Relutamos, para onde iríamos?
Num dia, era que estávamos na lavoura, a polícia – mais de dez soldados – invadiu minha casa e quebrou tudinho. A minha pobre e velha mãe com seus 111 anos durante horas perambulou perdida pela roça.
Quando nós chegamos do trabalho, dava vontade de chorar. Estava tudo quebrado, e minha velhinha, que ninguém sabia por onde andava. Horas depois foi que um dos meus rapazes encontrou-a no mato tonta ainda pelo espetáculo que lhe foi dado presenciar: beleguins em fúria, destruindo o que encontravam pela frente.
Tivemos mesmo que abandonar as terras onde meus filhos nasceram e foram criados. Estamos morando na residência de uma filha casada, lá mesmo em Riachão.
Eu queria que o Governo, já que é impossível voltar para as terras onde sempre vivi, providenciasse, pelo menos, o pagamento dos valores, que ainda estão em meu poder, e chegam a mais de trinta mil cruzeiros. Tenho direito também a que o Sr. Macedo me pague as benfeitorias que eu deixei, isto é, os pés de laranja, e de café. E que examine a própria consciência…

Não encontrei nenhuma outra referência a esse incidente nos jornais da época também disponíveis na Hemeroteca Digital.  Visto que se trata de um fato cruel supostamente cometido por um parente tão próximo e importante para mim, creio ser simples entender a razão de meu choque.

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Laranjais de Nova Iguaçu – Fonte: Jornal Hoje

O choque foi ainda maior pela descrição do ocorrido com a senhora de 111 anos, que seria “do tempo ainda da escravidão”, pelo fato de saber que tenho, pelo lado materno, antepassados que devem ter sido escravos na região.

Não cabe a mim – ou a ninguém, de fato – julgar as ações de meus antepassados. Não é possível tampouco absolvê-los pelo que fizeram a si mesmos e a outros. Cabe a mim e a meus parentes vivos entender de que forma viveram esses antepassados segundo os valores que norteavam suas vidas.


José Araújo é linguista e genealogista amador.