Libertas

Em texto anterior, discuti o resultado de um teste genético que comprovaria um fato desconhecido em minha família materna: minha avó materna, que para todos os efeitos era branca, na verdade tivera uma avó ou bisavó escrava. Outro fato igualmente surpreendente foi a descoberta de que também meu bisavô, pai de minha avó materna, tivera antepassadas escravas.

Minha avó Durvalina foi filha legítima de Arthur Rabello Guimarães e Argemira Pereira da Silva. Argemira foi filha natural de Maria Pereira do Céu. Segundo o teste de mtDNA, herdei de Maria Pereira, por meio de Argemira, Durvalina e minha mãe o haplogrupo L1c2, originário do sul da África, o que apenas se justificaria se minha linhagem materna mais remota viesse dessa região. A explicação mais plausível, portanto, era a de uma imigração forçada para o Brasil em função do tráfico de escravos que apenas terminou oficialmente em 1850 com a Lei Eusébio de Queiroz.

O pai de Durvalina, também era filho natural – de Julinda Dias Seabra (1843-1884). Embora sua paternidade ainda seja uma incógnita, foi o lado materno que revelou uma origem inesperada. O assento de batismo de sua mãe, visto abaixo, declara que era filha natural de Eleutéria.

batismo_julinda
Batismo de Julinda – 22/02/1843 – Nova Iguaçu, Rio de Janeiro

Aqui a transcrição, com um destaque:

Aos 5 dias do mês de julho de 1846 anos, nesta freguesia de Santo Antonio de Jacutinga, batizei e pus os santos óleos em Julinda, inocente, batizada em casa em perigo de vida, nascida em 22 de fevereiro de 1843, filha natural de Eleutéria Rosa da Conceição, solteira. Foi protetora Nossa Senhora e padrinho Antonio Soares da Silva, do que fiz este assento. O vigário Manoel dos Santos Silva

Creio ter encontrado também o assento de Eleutéria, mãe de Julinda:

Batismo_Eleutéria
Batismo de Eleutéria – 13/02/1822 – Nova Iguaçu, Rio de Janeiro

Aqui a transcrição, com destaques:

Aos treze dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e vinte e dois anos, nesta freguesia de Santo Antonio de Jacutinga, o reverendo coadjutor João Baptista da Silva César batizou e pôs os santos óleos em Eleutéria, filha natural de Generosa, parda, escrava de José da Costa. Foi padrinho Custódio, escravo do dito José da Costa. Do que fiz este assento. O vigário Mariano José de Mendonça

Generosa, avó de Julinda, havia sido escrava. Uma vez que a Lei do Ventre Livre foi aprovada apenas em 1871, tanto a filha de Generosa quanto a neta dela, minha trisavó Julinda, poderiam ter sido ser escravas. Exceto, claro, se uma delas tivesse conquistado a liberdade.

Escravos conquistavam a liberdade de diversas formas. A fuga do cativeiro era uma delas, porém havia o risco de captura e castigos ou mesmo a morte. A compra da liberdade por indenização ao proprietário era outra forma, mais frequente entre escravas que viviam nas cidades e atuavam no comércio, atividade em que conseguiam fazer uma economia que lhes permitia o pagamento ao proprietário após muitos anos. Havia ainda proprietários que libertavam seus escravos em testamento por bons serviços e/ou como condição de fossem por eles cuidados nos anos de velhice.

Havia, finalmente escravas que tinham filhos com seus proprietários. Esses filhos nem sempre eram perfilhados, porém poderiam ser apadrinhados por seus pais e, dessa forma, conseguiam ser cuidados por eles, ainda que permanecessem na situação de ilegítimos. Esses filhos poderiam também receber a liberdade no nascimento, o que representaria, para suas mães, uma conquista que elas mesmas talvez não alcançassem.

Aqui volto ao assento de batismo de Julinda. Nele se declara que seu padrinho fora Antônio Soares da Silva. Esse nome poderia não significar muita coisa. E de fato não significou até que encontrei o artigo Estratégias Familiares nos Inventários dos Soares da Silva, do historiador Max Fabiano Rodrigues de Oliveira. Nesse artigo, é retratado com destaque por sua posição como proprietário de terras e escravos na região de interesse.

O fato de Antônio Soares ter sido padrinho de Julinda, cujo assento de óbito (visto abaixo) a identifica como branca, parece bastante interessante. Sem querer tirar conclusões na falta de mais evidências, eu poderia supor que Julinda fora filha de Antônio e Eleutéria ou ainda de Eleutéria e outro homem não escravo que não a perfilhou, porém lhe deu seu sobrenome.

Julinda_Obito
Assento de Óbito de Julinda Dias Seabra – 21/01/1884 – Nova Iguaçu, Rio de Janeiro

Aqui a transcrição, com um destaque:

No dia 21 de janeiro de 1884, depois de encomendado, sepultou-se o cadáver de Julinda Dias Seabra, solteira, branca, na idade de 40 anos, falecida de hidropsia.

Até que outras evidências sejam encontradas, a explicação de que Julinda seria filha de seu proprietário, que a apadrinhou, me parece plausível.


José Araújo é linguista e genealogista amador.