Caos

Em texto anterior, abordei a importância dos relatos, histórias ou causos de família para a pesquisa genealógica. Essa importância se revelou há alguns meses quando, em conversa com uma prima de terceiro grau, ela informou que sua mãe era assinante de um jornal local – o Correio da Lavoura, fundado em 1917 – cujos proprietários (os Belém de Azeredo na geração atual) fariam parte de nossa família (os Pereira Belém). Algum tempo depois de ouvir esse relato, iniciei a busca pela possível relação entre as famílias, o que envolveu uma pesquisa em trabalhos acadêmicos, em registros cartoriais e em edições do jornal.

Os sobrenomes/apelidos Belém e Azeredo associaram-se a partir do casamento de Avelino Martins de Azeredo (1897-?), filho de Silvino Hipólito de Azeredo Coutinho (1859-1939), criador do Correio da Lavoura, e Avelina Martins Coimbra. Segundo a edição de domingo, 23/05/1943, Avelino se casara na véspera, no Rio de Janeiro, com Maria José Belém, filha de Adolfo Belém.

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CL – 23/05/1943

A busca pelo termo de casamento, que teria sido registrado na 2ª Pretoria da Capital, revelou a primeira surpresa que eu teria na busca pela relação entre as famílias: nele se declara que Avelino se casara com Delphina – não Maria José – Belém, que seria filha de Atualpa Marcos – não Adolfo – Belém e Dolores Lemos Belém, e que a noiva teria nascido em Nova Iguaçu em 16/03/1914.

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Termo de Casamento de Avelino e Delfina – 22/05/1914 – Rio de Janeiro

A busca pelo registro de nascimento de Delfina na data constante no termo de casamento revelou a segunda surpresa: em seu lugar foi encontrado o termo de nascimento de Ruy, filho dos já citados Silvino Hipólito de Azeredo Coutinho e Avelina Martins Coimbra. Não havia no livro registro de nascimento de Maria José ou Delphina, o que gerou a suspeita de que algum dos documentos encontrados – matéria do jornal e termos cartoriais – pudesse conter erros – mas qual (ou quais) deles?

Em virtude do aparente caos gerado pelas contradições e coincidências entre nomes e datas, ainda parece distante a possibilidade de comprovar a relação entre os Belém de Azeredo e os Pereira Belém sugerida em relato pela mãe de minha prima. A lição aprendida é que a pesquisa genealógica nem sempre resulta em sucesso imediato apenas porque há registros disponíveis.

Atualização em 5 de setembro de 2018:

O assento de batismo de Maria José/Delphina foi encontrado, e a data de nascimento informada em sua certidão de casamento com Avelino estava correta: ela realmente nasceu em Nova Iguaçu em 16 de março de 1914. Nesse assento, está registrado que era filha de Atualpa (realmente não Adolfo) Marcos Belém e de Dolores Belém, casados em Paracambi.

Eis o registo:

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Batismo de Maria José – 13/06/1915 – Nova Iguaçu

A certidão de casamento de Atualpa e Dolores (Paracambi, Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1902), pais de Maria José, foi também encontrada, e nela se informa que o noivo, “residente no último distrito do município de Vassouras“, era filho natural de Francisca Rosa da Conceição.

Não bastasse o caos já observado, no assento de casamento de seu filho Nelson Marcos Belém, em 26 de maio de 1932, At(a)ualpa é nomeado como pai do noivo, porém em sua assinatura lê-se Adolfo Belém, como se vê abaixo:

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Casamento de Nelson Marcos Belém – 26/05/1932, Rio de Janeiro

É interessante observar que tanto meu bisavô João Pereira Belém quando At(a)ualpa eram filhos naturais de mulheres com o sobrenome popular “da Conceição“. A ausência do nome do pai causa a impressão de que o sobrenome (apelido, em Portugal) Belém surgiu como por encanto.

Creio ainda estar longe de comprovar a relação familiar entre os Belém de Azeredo e os Pereira Belém, mas a busca continuará.

Atualização em 10 de setembro de 2018:

Nesta data, pude entrevistar Robinson Belém de Azeredo, filho de Maria José/Delphina Belém e neto de At(a)ualpa Marcos/Adolfo Belém.

Ele revelou que Delphina era o nome cartorial de sua mãe, isto é, o nome que ela usava para fins jurídicos, enquanto Maria José era o seu nome de batismo, com o qual ficou conhecida. At(a)ualpa, por sua vez, teria adotado o nome de Adolfo para evitar os dissabores causados por seu incomum nome de batismo.

Robinson afirmou ainda que o sobrenome Belém de Atualpa, que era “filho de pai desconhecido”, seria originário da localidade onde este nascera – Belém, atualmente Japeri (RJ). Por fim, ele informou que sua bisavó Dolores Pereira de Lemos, mulher de Atualpa/Adolfo, falecera de parto, muito jovem ainda, em 1918.

Após esses relatos, uma busca na base de dados da Hemeroteca Digital revelou que Atualpa/Adolfo tivera um filho chamado Walter provavelmente em 1925, o que sugeria um novo casamento após a viuvez. Até esse momento, eu desconhecia a quantidade exata de filhos que Atualpa/Adolfo tivera com Dolores, mas sabia que os dois filhos já encontrados – Nelson e Delphina/Maria José – haviam nascido em localidades distintas.

Com base nas informações coletadas, busquei um novo casamento de Atualpa/Adolfo na mesma localidade onde ele havia casado pela primeira vez – Paracambi. E o que descobri solucionou o quebra-cabeças: a certidão de casamento do viúvo Adolfo Belém, então com 46 anos, com a jovem Anna Ferreira. Nessa certidão, informa-se que:

  1. Adolpho era realmente o novo nome de Atahualpa: “… receberam-se em matrimônio Adolpho Belém, outrora Atahualpa Marcos Belém, …”;
  2. O pai de Atualpa/Adolpho era, sim, conhecido: “… filho ilegítimo de Adelino Augusto de Lobão Soeiro, natural de Portugal, e de Francisca Maria da Conceição, natural deste Estado, ambos falecidos neste município …”;
  3. Atualpa/Adolpho tivera mais filhos: quatro com a primeira mulher e um antes do segundo casamento, de nome Guilherme.

De posse de todas essas evidências documentais e do relato do neto de Atualpa/Adolpho e filho de Delphina/Maria José, posso afirmar que não há relação de parentesco entre os Belém de Azeredo e os Pereira Belém. O que não exclui uma relação de amizade entre as famílias, como pretendo apresentar em outro texto.

Desejo agradecer ao gentilíssimo senhor Robinson Belém de Azeredo pela breve entrevista concedida.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

2 comentários

  1. […] Ocorre que tanto Maria José quanto seu pai Adolfo – funcionário da Central do Brasil e tesoureiro de um centro espírita da cidade – tinham outras identidades civis: ela seria também Delphina e ele seria também At(a)ualpa, como já tratei em outro texto. […]

  2. […] repositório encontra-se digitalizada a coleção do jornal Correio da Lavoura, de que já falei em outro texto. Foi em pesquisa nessa base de dados que encontrei dois episódios interessantes relacionados a meu […]

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