Cotidiano

Ainda que traga gratas surpresas eventuais, a busca genealógica pode parecer uma incessante e monótona coleção de assentos paroquiais e certidões que informam quem nasceu, casou-se ou morreu quando e onde ou de testamentos que informam quantas missas deveriam ser rezadas ou bens legados pelo falecido aos seus familiares. Sorte têm aqueles que encontram fotografias, cartas e diários que emprestam alguma cor pitoresca às narrativas das vidas de seus antepassados.

Dentro da ideia de cor pitoresca incluo as querelas vividas por nossos parentes com autoridades, as decepções que tiveram com figuras de seu tempo, as expressões de seus sentimentos em poemas e canções e muitas outras manifestações que nos permitem saber o que desejavam, o que sentiam, o que os alegrava e frustrava – em outras palavras, como de fato foram para além dos eventos pontuais marcados pelo batismo, pelo casamento e pelo óbito.

Pelos hiperlinks encontrados no parágrafo anterior, resta evidente que tive a sorte de encontrar uma variedade de cores pitorescas relacionadas a meus parentes, principalmente para o ramo paterno português. As cores do ramo materno brasileiro têm sido descobertas mais recentemente graças à disponibilidade de novas bases de dados, como a Hemeroteca Digital e o Repositório do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – o RIMA.

Localizado no município de Nova Iguaçu, onde minha família materna ficou estabelecida por longo período, o Instituto Multidisciplinar está em funcionamento desde o ano de 2006. Em seu repositório encontra-se digitalizada a coleção do jornal Correio da Lavoura, de que já falei em outro texto. Foi em pesquisa nessa base de dados que encontrei dois episódios interessantes relacionados a meu avô materno Enéas Pereira Belém (ca. 1888-1970).

O primeiro episódio está contido em um texto publicado a pedido no CL em 26 de agosto de 1945, época em que meu avô era tesoureiro do Filhos de Iguassú Futebol Clube. Em algum momento, teria havido uma discordância a respeito de um serviço efetuado na sede do clube e da origem dos recursos empregados na execução desse serviço. Meu avô assina a nota que fez publicar em resposta a comentário anteriormente publicado no mesmo veículo.

tesoureiro
Correio da Lavoura – 26/08/1945

O segundo episódio pode ser visto no texto abaixo, publicado no ano seguinte no mesmo veículo. Desta vez a razão é meramente informativa, com apresentação da relação dos organizadores da próxima festa de Santo Antônio, padroeiro da cidade. A curiosidade é que além do nome de meu avô, a lista apresenta também o nome de José Macedo de Araújo, um tio paterno muito importante a quem dediquei outros textos, e o nome de Luiz Som(m)a – paulista que se se casaria com sua cunhada Maria Rabello Guimarães.

festeiro
Correio da Lavoura – 16/06/1946

Esses textos sugerem que meu avô tinha um grande envolvimento na vida cultural e esportiva de sua cidade, que era um homem preocupado com sua imagem pública e que se relacionava de alguma forma com parentes de meu ramo paterno. Nada incomum para uma cidade que ainda era pequena, mas já crescia em importância.


José Araújo é linguista e genealogista amador.