Theodora

A pesquisa em assentos e certidões deveria oferecer ao pesquisador e à pesquisadora dados objetivos a partir dos quais poderia construir a história de uma pessoa ou família. Mas nem sempre é assim. Existe em minha árvore um caso, nem tão remoto no tempo, que deveria ter sido solucionado, porém parece apenas se complicar com cada novo registro encontrado.

Trata-se da descoberta da data de óbito de minha bisavó Theodora Maria da Conceição, de quem já falei em outro texto. Segundo história que ouvi de minha mãe, Theodora havia falecido com 118 anos. Sempre acreditei que se tratasse de um exagero, portanto me ative apenas ao que pude encontrar nos cartórios, como os registros de batismo e casamento de sua filha Esmeralda, os quais transcrevo abaixo na íntegra, com meus destaques, e que me forneceram dados aparentemente objetivos sobre a vida de Theodora.

Número cento e dezoito. Assento de nascimento. Aos vinte e três dias do mês de agosto de 1903, nesta cidade de Maxambomba, primeiro distrito de Iguaçu, estado do Rio de Janeiro, compareceu em meu cartório Fernando José de Oliveira e em presença das testemunhas abaixo nomeadas e assinadas declarou que, em lugar denominado Austin, hoje, às sete horas da tarde, nasceu uma criança do sexo feminino, de cor parda, filha legítima de João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição, residentes neste distrito, avós paternos Pedro Gomes de Morais e Joaquina Morais e maternos Felippe Rangel e [], digo, Maria Laurinda da Misericórdia. A criança há de chamar-se Esmeralda. Do que para constar [] este termo em que assinam comigo o declarante e as testemunhas Alferes Cleophas José Soares e Manuel Sabino da Silva, ambos residentes nesta cidade. Eu [] Antônio Soares, escrevi e assino.


Termo de casamento número cinco. Aos, digo, número seis. Aos cinco dias do mês de janeiro de 1927, nesta cidade de Nova Iguaçu, estado do Rio de Janeiro, em a sala das audiências, à rua Bernardino de Mello número cento e cinquenta e três, onde se achava o juiz de paz em exercício senhor Manoel Joaquim Leitão, comigo escrivão e oficial do registro civil, abaixo assinado, aí em presença das testemunhas José Vasco Júnior, natural de Portugal, com trinta e cinco anos de idade, casado negociante em Austin, neste distrito, e Oscar Martins de Souza, natural da capital federal, com quarenta e três anos de idade, casado, funcionário público, residente à rua Torres Homem número duzentos e sessenta e oito, na capital federal, às doze horas, receberam-se em matrimônio sobre (sic) o regime de comunhão de bens José Antônio da Silva e Esmeralda Belém, ele natural do estado de Minas Gerais, com vinte e três anos de idade, nascido em vinte e quatro de abril de mil novecentos e três, solteiro, empregado da Estrada de Ferro Central do Brasil, residente em Austin, neste distrito, filho legítimo de [Silverido] Manoel Antônio, falecido em [cinco] de junho de mil novecentos e três, e de dona Maria [Medeiros] da Glória, brasileira, digo, natural de Portugal, residente em Austin, e ela, natural deste estado, com vinte e três anos de idade, nascida em vinte e três de agosto de mil novecentos e três, solteira, doméstica, filha legítima de João Pereira Belém, falecido em vinte e três de outubro de mil novecentos e vinte e um, e de dona Theodora Maria da Conceição, brasileira, residente com a nubente em Austin, neste distrito. Os nubentes apresentaram os documentos exigidos por lei em dezesseis de dezembro do ano próximo passado, dia em que foi afixado o edital de proclamas em lugar [ostensivo]. Em firmeza do que eu, Godofredo Caetano Soares, lavrei este ato, que vai por todos assinados e pela testemunha Manoel Pereira Belém, natural deste estado, com vinte e cinco anos de idade, funcionário público, casado, residente à rua Travessa Chaves número vinte e cinco, nesta cidade, a rogo da contraente, que não sabe ler e escrever. Eu, Godofredo Caetano Soares, escrivão, escrevi.

Segundo esses documentos, Theodora poderia ter até cerca de 40 anos quando nasceu Esmeralda e pouco mais de 60 quando esta se casou. Isso seria o aceitável em termos de capacidade reprodutiva e expectativa de vida. Até então, tudo parecia muito simples e objetivo.

Esses dados seriam incompatíveis, no entanto, com aqueles encontrados no termo de casamento de Manoel Pereira Belém, outro filho de Theodora, o qual também transcrevo na íntegra com meus destaques.

Número 313. Aos 14 dias do mês de setembro de 1926, nesta cidade de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, em a sala das audiências à rua Bernardino de Mello, número 193, onde se achava o Juiz de Paz em exercício senhor Manoel Joaquim Leitão, [] escrivão do registro civil abaixo assinado, em presença das testemunhas: Alfredo Gomes Lavinas, natural deste Estado, com 39 anos de idade, casado, estabelecido com ferraria nesta cidade, residente à rua Bernardino de Mello número 81 nesta cidade, e Antonio Gonçalves Pereira, natural de Portugal, com 50 anos de idade, casado e empregado da Prefeitura do Município de Iguaçu, residente à rua Vista Alegre número 111, nesta cidade, aos 14 dias receberam-se em matrimônio sobre [sic] o regime da comunhão de bens, Manoel Pereira Belém e Maria das Dores Barboza. Ele, natural deste Estado, com 25 anos de idade, nascido em 1º de abril de 1901, funcionário público, solteiro, residente à rua Vista Alegre, número 111, nesta cidade, filho legítimo de João Pereira Belém e de Theodora Maria da Conceição, brasileiros, falecidos em datas ignoradas, e ela, natural deste Estado, com 29 anos de idade, nascida em 23 de agosto de 1897, solteira, doméstica, residente à rua Vista Alegre número 111, nesta cidade, filha legítima de José Olympio Barboza e de Dona Maria Joaquina Barboza, falecidos em datas ignoradas. Os noivos exibiram os documentos exigidos por lei em 13 de agosto do corrente ano, dia em que foi afixado o edital de proclamas. Em firmeza do que eu, Godofredo Caetano Soares, escrivão, lavrei este ato, que vai por todos assinados.

Em outras palavras: como poderia Theodora estar viva no casamento de sua filha Esmeralda em 1927 e morta no ano anterior, quando se casou seu filho Manoel? Nada menos simples e objetivo que isso.

O que dizer, finalmente, do registro de óbito abaixo, encontrado anteriormente, que corrobora a história que ouvi de minha mãe?

bito de Teodora Maria da Conceição
Óbito de Teodora Maria da Conceição –

Aqui sua transcrição:

Aos 30 dias do mês de janeiro do ano de 1947, em meu cartório compareceu Manoel dos Santos, brasileiro, comerciante, casado, residente nesta cidade exibindo atestado firmado pelo doutor Humberto Gentil Baroni e declarou que na Estação de Austin, no dia 29 do corrente mês e ano, às quatro horas, faleceu de “embolia pulmonar” Theodora Maria da Conceição, do sexo feminino, de cor parda, com 118 anos de idade, viúva, filha, digo, natural deste Estado, filha de pessoas ignoradas. Vai ser sepultada no cemitério de Nova Iguaçu. Deixa bens e filhos. Para constar firmei este termo que, depois de lido e achado conforme, vai devidamente assinado […]

Em qual informação confiar é algo que não posso declarar até que consiga mais evidências, tais como os registros matrimoniais dos outros filhos de Theodora e os de batismo de seus netos.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

1 comentário

  1. […] uma personagem bastante complexa de minha árvore familiar. A complexidade se deve ao fato de haver evidências discordantes relativas ao ano de seu óbito, ausência de informações objetivas sobre seus pais e também a respeito de sua cidade de […]

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