Xindonga

Alcunhas – ou apelidos, como se diz no Brasil – costumam ser atribuídas para destacar uma característica física ou de personalidade de uma pessoa, ou até mesmo, como foi o caso de um antepassado em Portugal, para refletir sua posição dentro da família no que diz respeito à transmissão dos bens. Mas o que dizer de uma alcunha que denota o pertencimento a uma etnia que talvez diga algo sobre o local de origem de uma família?

Tomei conhecimento dessa possibilidade há muito pouco tempo quando tive minha atenção despertada para a alcunha de uma prima de minha mãe de nome Nadyr. Seu assento de batismo pode ser visto abaixo:

batismoxindonga

Batismo de Nadyr – 29/06/1920 – Nova Iguaçu, Rio de Janeiro

Aqui a transcrição com meus destaques:

Aos vinte e nove dias de junho de mil novecentos e vinte, na matriz de Santo Antônio de Jacutinga, batizei solenemente Nadyr, nascida a vinte e dois de setembro de mil novecentos e dezenove; filha [legítima – rasurado] de Alfredo José dos Santos e Maria Pereira Belém, casados só civilmente. Padrinhos: Manoel Pereira Belém e Balbina Maria de Souza. Para constar, fiz este assento em que me assino, o vigário, padre Manoel da Silva Porto.

O fato – facto, para os portugueses – é que não foi como Nadyr que essa prima ficou conhecida, mas sim como Xindonga. Jamais me havia dado conta de que sua alcunha tinha uma sonoridade obviamente africana até que tivesse começado a buscar a origem dos Pereira Belém, a família de minha mãe, que localizei em Itaguaí, na localidade conhecida como Bananal.

Houve em Bananal uma importante família com esse sobrenome (ou apelido, como se diz em Portugal), a qual teve não apenas terras, mas também escravos. A família de minha mãe era de origem claramente africana, o que permite supor que houve escravos em minha ascendência. Nesse contexto, a sonoridade da alcunha de Nadyr não deveria resultar de um mero acaso.

Munido de curiosidade, busquei o significado da palavra Xindonga, que vem a ser, segundo a Wikipédia:

[… ] um termo cunhado por etnógrafos para designar quatro pequenos povos que vivem no extremo Sudeste de Angola: os Cusso (ou Mbukushi), os Dilico (ou Dirico), os Sambio e os Maxico.

Angola, como sabemos, foi local de origem, captura e partida de africanos que viriam a se tornar escravos no Brasil.

Não é possível precisar a razão por que essa alcunha foi dada a Nadyr, que hoje tem idade muito avançada e dificuldade para ouvir e enxergar. Uma de suas filhas comentou que outra pessoa na família tivera a mesma alcunha, mas ela não sabia quem. De qualquer forma, considerando o que já descobri sobre minha família materna, é tentador traçar a origem de nossos antepassados a algum lugar no Sudeste de Angola.


 

José Araújo é linguista e genealogista amador.

Categorias: História, Pesquisa

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