Polícia

Meu avô Antônio Maria Pinto de Araújo teve dois casamentos. Sou neto de Josefa, com quem ele se casou aos 50 anos, em 1918, depois um breve período de viuvez decorrente da perda de sua primeira esposa Luiza de Macedo, com quem ele chegou no Porto de Santos, São Paulo, em 14 de abril de 1905, trazendo os sete filhos que tiveram em Portugal. Quando meu avô chegou, aqui já se encontravam seus cunhados Vasco e Maximiano de Macedo, irmãos de Luiza.

Vasco, comerciante, era padrinho de José Augusto Macedo de Araújo, o meio-irmão de meu pai em cuja homenagem foi-me dado o primeiro nome. Maximiano, batizado na freguesia Barcos, no concelho de Viseu em Portugal, teve como padrinho Maximiano Pereira de Carvalho, talvez irmão de sua avó paterna, que era alfaiate. A certidão de casamento de Maximiano de Macedo – parcialmente transcrita abaixo – informa que também ele era alfaiate, portanto deve ter aprendido o ofício com o padrinho ainda em Portugal.

Aos dois dias do mês de julho de 1921, nesta cidade de Nova Iguaçu, primeiro distrito do município de Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, na residência do nubente, às dez horas, presentes […] as testemunhas Vasco de Macedo, natural de Portugal, com 51 anos de idade, lavrador, casado e residente neste município […] e os nubentes Maximiano de Macedo e Maria do Amaral Xavier de Macedo […] receberam-se em matrimônio segundo o regime de comunhão de bens […] Ele, natural de Portugal, com 37 anos de idade, solteiro, alfaiate, residente nesta cidade, filho legítimo de José de Macedo e Emília Rosa de Macedo, já falecidos…

Sua chegada ao Brasil, pelo Porto do Rio de Janeiro ocorreu em 4/03/1902. O registro – cuja transcrição se vê abaixo – informa que Maximiano de Macedo era solteiro, agricultor (sic), tinha 26 anos e embarcara em Lisboa no navio Nille.

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Entrada de Estrangeiros no Brasil/Porto do Rio de Janeiro – Arquivo Nacional

Nada haveria de extraordinário nesse relato não fosse o facto de haver em registros de periódicos encontrados no sítio da Hemeroteca Digital inúmeras referências a certo Maximiano de Macedo, alfaiate português envolvido nos protestos de trabalhadores contra a carestia de vida e no processo de reestruturação dos sindicatos no Rio de Janeiro nos anos de 1917 e 1918. Esses movimentos tiveram inspiração anarquista, e alguns participantes foram presos na Ilha das Cobras, inclusive Maximiano, segundo informa o jornal A União:

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A União – 27/07/1917

Maximiano de Macedo teve papel importante não apenas na reestruturação da União dos Alfaiates – fundada no Rio de Janeiro em 10/05/1909 -, mas também no trabalho de organização das manifestações de rua, sendo citado entre os 11 militantes mais ativos da Federação dos Operários do Rio de Janeiro na dissertação da pesquisadora Maria Cecília Velasco e Cruz.

Não estou certo de que o Maximiano de que se fala em toda essa cobertura jornalística seja o tio-sogro de meu tio José, porém encontrei três matérias relacionadas a um incidente que este último teria sofrido e que podem ajudar a esclarecer a questão. As matérias são transcritas abaixo com meus destaques.

A primeira matéria foi publicada no jornal A Razão de 3/07/1920:

MAIS UMA

Até em Nova Iguaçu

Os tais agentes de polícia do sr. Júlio Rodrigues!

Ententem eles que o Brasil lhes pertence e acabam de invadir a cidade fluminense de Nova Iguaçu.

Sob o pretexto de perseguir o ladrão Antônio Pereira Júnior naquela cidade, invadiram o lar do sr. Maximiano de Macedo, que se achava em sua alfaiataria, revistando toda a casa e pesquisando até debaixo das camas, com grande susto da esposa do sr. Macedo.

O Distrito Federal é pequeno para as façanhas dos tais sujeitinhos.

A segunda matéria foi publicada no jornal Voz do Povo de 5/07/1920:

Estranha perseguição a um negociante em Nova Iguaçu

Fomos ontem procurados em nossa redação pelo Sr. Maximiniano (sic) de Macedo, estabelecido com alfaiataria em Nova Iguaçu, onde reside em casa de sua propriedade, o qual solicitou-nos que fizéssemos público o seu protesto contra a violência cometida pela polícia desta Capital Federal, que enviou uma turma de agentes do Corpo de Segurança àquela localidade em sua procura, a qual, não o encontrando em seu estabelecimento comercial, foi à sua residência, ali procedendo rigorosa busca, apesar de se encontrar bastante enferma a sua esposa, que muito se afligiu com aquela violência.

Vendo baldada a busca efetuada, os agentes entraram em sindicâncias pela vizinhança, dizendo que andavam à procura de Antônio Pereira de Carvalho, que diziam estar envolvido em um furto de joias, e que esse Carvalho era irmão dele Macedo, sendo bem possível que estivesse o crimino homisiado em sua casa.

Ora, declarou-nos o sr. Maximiano Macedo, que não tem irmão algum com tal nome, sendo falsa semelhante acusação, e que tem um único irmão chamado Vasco de Macedo, morador na Pavuna, e na casa do qual a polícia também esteve, falando com ele sem o prender.

Portanto, só pode atribuir essa arbitrariedade policial a uma calculada perseguição que lhe seja movida e cujos motivos ignora, sentindo-se, entretanto, com a sua liberdade comprometida e sem a necessária segurança para trabalhar em seu estabelecimento.

Esta é mais uma das contumazes violências policiais contra as quais diariamente clamamos.

A terceira matéria, enfim, foi publicada no Jornal do Brasil de 6/07/1920:

A POLÍCIA CARIOCA PRATICA VIOLÊNCIAS NO ESTADO DO RIO

O Sr. Maximiano de Macedo, estabelecido já anos com alfaiataria à rua Marechal Floriano Peixoto, n. 86, em Nova Iguaçu, transantontem teve a sua residência, na mesma localidade, varejada por três indivíduos que se diziam agentes especiais da polícia desta capital.

Isso passou-se pela manhã e na ausência do sr. Macedo, que já havia saído com destino ao seu estabelecimento.

Embora enferma, a esposa do sr. Macedo, para evitar, quiçá, maior violência, abandonou o leito, franqueando a casa aos visitantes que, após rigorosa busca, se retiraram, embarcando para esta capital.

Como não saiba a que atribuir tamanha violência, o sr. Maximiano de Macedo, que gosta de grande estima e consideração em Nova Iguaçu, onde nada ocorreu jamais que desabonasse a sua conduta, solicita para o facto a atenção do sr. Desembargador Chefe de Polícia, pois os agentes informaram estar cumprindo ordens de s. exa.

As três matérias relatam o mesmo incidente, porém as duas últimas abordam a suposta arbitrariedade de uma busca feita pela polícia da então capital federal em uma localidade distante. O facto de Maximiano ter conseguido cobertura de três veículos jornalística para o incidente sugere que ele tivesse:

  1. contato com jornalistas, o que talvez seja resultado da visibilidade alcançada no período anterior, graças a sua atuação no movimento sindical;
  2. temor de estar sofrendo perseguição por conta dessa mesma atuação.

A busca de visibilidade ao incidente da invasão a sua residência poderia ser uma forma de conquistar uma salvaguarda contra possíveis sanções ou mesmo violências contra si e seus familiares por parte das autoridades policiais da capital.

Ainda resta comprovar por provas documentais que todas as evidências citadas se refiram à mesma pessoa e ainda pretendo escrever mais sobre o Maximiano sindicalista. Por ora, divulgo sua foto, que ilustra uma entrevista que concedeu ao jornal A Razão:

maximiano
A Razão – 2/06/1917

José Araújo é linguista e genealogista amador.

2 comentários

  1. […] um reconhecido alfaiate, tal como fora seu padrinho de batismo em Portugal. Isso foi comprovado por meio de certidões e notas em periódicos. Nesse caso, textos que mencionassem outra profissão fariam referência ao filho de Vasco, […]

  2. […] de publicações como A Lanterna (1901-1935), na qual encontramos várias referências ao alfaiate Maximiano de Macedo (1873-?), o qual acredito ter sido o tio e sogro de José Augusto de Macedo Araújo, meio-irmão […]

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