Homonímia

A existência de antepassados com nomes idênticos ou quase idênticos dentro da mesma geração pode se tornar um problema para a correta escrita da história da família quando não há documentos ou relatos que permitam a correta desambiguação.

Em minha família paterna, existe o caso de Maximiano de Macedo, cunhado de meu avô paterno por seu primeiro casamento com Luiza de Macedo. Maximiano e seu irmão Vasco chegaram ao Brasil antes de 1905 e se estabeleceram em Maxambomba, atualmente a cidade de Nova Iguaçu.

Vasco de Macedo (1871-1928) casou-se com Cândida Clementina de Araújo, com quem teve quatro filhos. A um deles deu o nome de Maximiano. É muito provável que os Macedo e os Araújo fossem aparentados em Portugal, portanto Vasco pode tanto ter homenageado seu irmão quanto um antepassado de sua esposa ao dar ao filho o nome de Maximiano.

O facto é que essa semelhança causou alguma dificuldade na correta atribuição de identidade ao nome Maximiano de Macedo encontrado em registos em periódicos como o Almanak Laemmert.  O único possível elemento para eliminar a ambiguidade nesse caso seria a profissão: o irmão de Vasco de Macedo era indubitavelmente um reconhecido alfaiate, tal como fora seu padrinho de batismo em Portugal. Isso foi comprovado por meio de certidões e notas em periódicos. Nesse caso, textos que mencionassem outra profissão fariam referência ao filho de Vasco, provavelmente um produtor agrícola na localidade.

Poderia haver outra ambiguidade relacionada ao irmão de Vasco de Macedo. Este vivia em Nova Iguaçu, porém teria tido um homônimo com forte atuação no então incipiente movimento sindical no Rio de Janeiro, na época a capital federal. Mas seria realmente um homônimo ou de facto o cunhado de meu avô? Como desfazer mais essa ambiguidade?

O Maximiano de Macedo sindicalista era também envolvido com a Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, entidade de base anarquista que combatia a influência da Igreja na Educação e defendia um ensino com bases científicas – leia mais sobre esse assunto em outro texto. Em uma busca no Google, encontrei o texto abaixo: um telegrama enviado por Maximiano de Macedo em 9 de dezembro de 1928 em sinal de consternação pelo falecimento de Ferdinando Labouriau na queda do hidravião Santos-Dumont seis dias antes.

TELEGRAMA

Fonte: Fiocruz

Aqui a transcrição com meus destaques:

Colônia portuguesa Nova Iguaçu manda celebrar amanhã dez horas matriz local solenes exéquias vítimas lamentável desastre chegada glorioso Santos-Dumont e convida para esse ato Rádio Sociedade Rio de Janeiro tão cruelmente ferida perda seu presidente Dr. Laboriau. Coração português chora com a alma brasileira neste momento doloroso – Maximiano Macedo

Ferdinando era presidente da Rádio Sociedade, a “primeira emissora de ciência no Brasil”. A bordo da aeronave, que “caiu de uma altura de 300 metros, nas imediações da Ilha das Cobras, matando todos seus tripulantes” estavam “grandes nomes da intelectualidade brasileira”.

A conjunção de semelhanças entre o nome do remetente do telegrama, sua origem nacional e local de residência, somados ao vínculo com a ciência, sugerem que o Maximiano de Macedo em questão fosse mesmo o cunhado de meu avô e não um homônimo e possivelmente também não o filho de Vasco de Macedo.


José Araújo é linguista e genealogista amador.