Datação

Por vezes, ao organizarmos os arquivos de família, encontramos fotografias antigas sem dedicatória ou outro tipo de informação que permita uma datação objetiva. Tenho algumas assim. Nesses casos, é preciso recorrer a métodos indiretos para estimar a data do registo.

Pistas que permitam deduzir essa data podem ser obtidas diretamente das imagens retratadas. Na imagem abaixo, de meu acervo pessoal, em primeiro plano podem ser vistos minha tia materna Zilah Pereira Belém e Carlos Alberto Lopes, que viria a ser – ou talvez já fosse – seu marido. Mais atrás, à esquerda, meu avô Enéas Pereira Belém.

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Fonte: acervo pessoal, sem data

A primeira pista para datação da imagem seria exatamente a data de casamento de Zilah e Carlos, pois o registo deve ter sido feito antes ou depois dessa data. A única informação sobre esses tios de que dispunha até o momento estava na certidão de óbito de Zilah. Ela faleceu em 29 de dezembro de 2006 aos 74 anos. Esse documento informa ainda que, na comunicação do óbito, foi apresentada a certidão de casamento de Zilah e Carlos e os dados do livro – “12B, folha 215, termo 5424” – onde foi registada.

O livro 12B não estava disponível para consulta no sítio do FamilySearch até o momento da escrita deste texto, portanto seria necessário usar o artifício de supor que Zilah tivesse cerca de 20 anos quando se casou. Uma vez que a certidão de óbito informa que ela nasceu em 7 de novembro de 1932, seu casamento poderia ter ocorrido entre 1950 e 1953. Se estivesse apenas noiva ou namorando, poderíamos supor que o registo tivesse sido feito antes: entre 1945 e 1950. Por segurança e na ausência de outras pistas documentais, diríamos que o registo fotográfico foi feito entre 1945 e 1953.

Como se trata de um período longo, poderíamos recorrer a outra pista, desta vez mais sofisticada: a inteligência artificial. Usando a ferramenta disponível no sítio da microsoft, estimei a idade de Enéas e de Zilah, sobre os quais eu dispunha de informações precisas de nascimento. Para Enéas, a ferramenta atribuiu a idade de 67-68 anos – dependendo das dimensões da imagem recortada. Para Zilah, sete-oito anos, erro grosseiro que talvez decorra da posição de seu rosto na fotografia. Para Carlos, sobre quem não disponho de informações documentais, a idade atribuída foi de 37-38 anos.

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Imagem processada em API de Detecção Facial

Sei que Enéas nasceu em 1888 e faleceu aos 80 ou 81 anos em 1970, portanto o registo fotográfico teria sido feito ao menos 14-15 anos antes de sua morte, o que ampliaria o período  de estimativa para 1945-1956. Como se vê, a ferramenta mais sofisticada não tornou a estimativa mais precisa, mas ampliou pouco – em três anos, no máximo – aquela feita apenas com base em informações documentais.

Como, então, tornar mais exata a estimativa de datação?

Uma possibilidade seria o tratamento da imagem para aumentar o contraste e eliminar imperfeições, porém não é certo que isso resulte em uma estimativa infalível. Por sorte, havia outra imagem feita na mesma circunstância em que são retratadas algumas irmãs de minha tia e uma sobrinha dela – Vera Maria – que, segundo relato pessoal, viveu com meus avós quando tinha dez anos, mais ou menos. Vera nasceu em janeiro de 1944, portanto deve ter participado do evento registado nas fotos por volta de 1955, o que permite datar a foto para a extremidade final do período estimado anteriormente – 1945-1956. Visto se tratar de um baile carnavalesco, estimo que a foto tenha sido feita em fevereiro de 1955 ou de 1956.

Em vista do que foi exposto, percebemos que uma datação segura torna-se mais provável quando a fotografia:

  • está íntegra e sem manchas ou rachaduras que impeçam o processamento por uma ferramenta de inteligência artificial;
  • contém outros elementos – outras pessoas, vestuário ou cenário – que auxiliem na estimativa de data;
  • existe em um conjunto em que haja outras fotografias com elementos – pessoas, vestuário ou cenário – que possam ser corretamente datados;
  • contém elementos que possam estar de alguma forma associados a relatos de família;
  • exibe elementos que possam ser associados a algum evento sazonal característico da cultura local ou de alguma cultura reconhecida.

José Araújo é linguista e genealogista amador.