Autossômico

Os testes de DNA disponíveis para o público leigo são ferramentas auxiliares para a pesquisa da genealogia, porém os resultados que apresentam precisam ser bem entendidos para evitar conclusões equivocadas. Já tratei aqui dos testes de herança paterna – que analisam a herança pelo cromossomo Y- e materna – que analisam a herança pelo DNA mitocondrial. Os testes de DNA autossômico (atDNA), diferentemente dos anteriores, analisam traços de ambos os lados.

Esses testes são baseados na análise dos cromossomos 1 a 22, herdados por combinação do DNA de ambos os pais. Por meio dessa análise, é possível apenas inferir a origem étnica e geográfica dos antepassados sem necessariamente se fazer distinção entre linhagem materna e paterna. A imagem abaixo exemplifica o resultado de um teste de atDNA disponível no mercado:

ATDNA
Resultados de DNA do MyHeritage

A interpretação visual do mapa de calor (heat map) é clara: quanto mais intensa a tonalidade, maior a participação de um grupo étnico na herança genética do indivíduo. Na imagem, observa-se maior participação étnica europeia (ocidental-meridional e setentrional) e africana (setentrional, ocidental e oriental). No mesmo caso, não há participação de grupos ameríndios. A ferramenta indica também os percentuais para cada grupo étnico: 46,1% ibérico; 17,7% escandinavo; 13,9% queniano; 9,1% norte-africano e 7% nigeriano. Mas como interpretar esses percentuais à luz do que se sabe sobre a história familiar?

Como se trata de meus resultados, a interpretação é relativamente simples: os 46,1% ibéricos são obviamente resultantes de minha herança portuguesa, prioritariamente por meu lado paterno e também pelo materno, pois tudo indica que o pai de minha avó materna era filho de pai português. Já os 20,9% da soma de africano ocidental e oriental certamente vieram do lado materno, afinal já abordei aqui por várias vezes minha herança africana.

Para explicar os 9,1% de herança norte-africana é necessário recorrer à história de Portugal: em 711 d.C. a Península Ibérica foi conquistada pelos mouros, povos oriundos do Norte de África e praticantes do Islã, que se estabeleceram no território português e expulsaram os cristãos insubmissos para as áreas mais setentrionais, de onde iniciariam a reconquista mais tarde. É impreciso afirmar que os quase 10% de herança norte-africana são devidos ao lado paterno – ou materno -, visto que meu bisavô materno também tinha origem ibérica (portuguesa).

Há ainda 17,7% de herança escandinava que poderiam ser difíceis de explicar, visto que não há em minha família nenhum antepassado conhecido que seja oriundo da Suécia, da Noruega ou da Dinamarca. Novamente, é necessário recorrer à história. Segundo a Wikipédia (com meu destaque):

Com o enfraquecimento do império romano, a partir de 409, o território é ocupado por povos germânicos como vândalos na Bética, alanos que fixaram-se na Lusitânia e suevos na Galécia. Em 415 os visigodos entram na Península, a pedido dos romanos, para expulsar os invasores. Vândalos e alanos deslocam-se para o norte de África. Os suevos e visigodos fundam os primeiros reinos cristãos.

Finalmente, é importante ressaltar que os resultados dos testes de atDNA podem variar mesmo entre irmãos que compartilham pai e mãe, pois estão sujeitos à variação na combinação dos cromossomos 1 a 22.


José Araújo é linguista e genealogista amador.