Alfaiate

“Quase não há diferença entre uma e outra fábrica. Desde o Jardim Botânico até Paracambi, e desde Bangu até Petrópolis, em toda parte sente-se a mesma escravidão, idênticos são os sofrimentos do trabalho rude e da vida miserável”. – Pelas Fábricas de Tecidos, In: 1911, A Guerra Social, periódico anarquista, citado por Carlos Augusto Addor.

Com o fim da escravidão, a necessidade de mão de obra para a lavoura do café propiciou a importação de trabalhadores europeus, principalmente espanhóis, italianos e portugueses, que chegavam ao Brasil na virada do século XIX para o XX sonhando com a promessa de obter a posse da terra para plantar e fazer riqueza. No entanto, promessas e sonhos não realizados e os maus-tratos a que eram submetidos no campo os levariam a buscar trabalho assalariado nas cidades, onde as condições de vida não eram melhores, como podemos concluir pela leitura da citação que abre este texto.

De fato, homens, mulheres e crianças eram nas fábricas expostos a longas e exaustivas rotinas de trabalho, em condições insalubres e sob risco de acidentes nas máquinas. Às péssimas condições de trabalho e de vida – muitos operários de fábrica viviam em cortiços ou em vilas operárias das quais poderiam ser expulsos se perdessem o emprego – e aos baixos salários, somou-se a carestia generalizada deflagrada pela primeira guerra (1914-1918) e, com ela, a fome e as doenças.

Nesse contexto, os operários já familiarizados na Europa com movimentos como o anarquismo iniciaram movimentos de protesto e greves por melhores condições de trabalho e de vida. Segundo Carlos Augusto Addor, “as principais greves que eclodem no Rio de Janeiro e São Paulo, de 1917 a 1919, têm sempre como uma de suas principais motivações imediatas a questão da carestia”, como comprova a seguinte nota do jornal O Imparcial sobre um evento no bairro do Catumbi, Rio de Janeiro, no qual participou o operário Maximiano de Macedo, cunhado de meu avô paterno.

IMPARCIAL

O Imparcial – 9/04/1917

Além desses movimentos, os operários iniciaram também um processo de organização por ofício, como forma de conquistar mais direitos trabalhistas. Maximiano, por exemplo, era alfaiate e teve intensa participação na organização de uma associação local.  Abaixo, transcrevo, com meus destaques, a entrevista concedida por ele ao jornal A Razão – veículo oficial da doutrina conhecida como racionalismo cristão – em 2 de junho de 1917:

O PROGRESSO DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO DOS ALFAIATES

As costureiras organizar-se-ão?

O que nos diz a respeito o sr. Maximiano de Macedo

Os alfaiates do Rio de Janeiro, que há longo tempo permaneciam na mais humilhante indolência, realizaram há dias, com extraordinário êxito, a reorganização da sociedade que, por inúmeras vezes, fez tremular sua tradicional bandeira em defesa dos direitos de tão numerosa quanto honrosa classe.

As energias despertaram e eis que a União dos Alfaiates revive vigorosamente tendo à frente de seus destinos esforçados trabalhadores, incansáveis propagandistas da verdade, da razão, do direito, da justiça e e da liberdade da classe.

Outra iniciativa preocupa agora os dirigentes da jovem sociedade e pela qual estão dispostos a lutar: a organização das costureiras. Sobre esse assunto, que tem despertado vivo interesse entre a classe, ouvimos ontem o sr. Maximiano de Macedo, um dos trabalhadores mais em evidência entre os alfaiates.

– Qual o meio que vão pôr em prática para organizar as costureiras?
– Ainda não resolvemos nada sobre este magno assunto, disse-nos o sr. Macedo, mas, a meu ver, o melhor meio é convidar pessoalmente todas as companheiras costureiras por meio de cartas enviadas para suas respectivas residências.
– É a primeira vez que elas se organizam?
– É a primeira, mas é tal o estado de miséria em que se debatem que logo se pode prever o sucesso da iniciativa.
– Quantas costureiras há no Rio de Janeiro?
– Trabalhando em coletes, e é a estas que nós especialmente nos dirigimos, há um número de 2.000, mais ou menos.
– E todas têm trabalho suficiente?
– Atualmente não. O senhor não imagina a miséria por que estão passando muitas destas infelizes operárias, na sua maioria com família e com pouco trabalho, e assim mesmo mal pagas.
– Pode dar uma relação dos preços da obra?
– A obra de confecção está sendo paga de 1$200 a 1$800 e a sob medida de 2$000 a 5$000, com exceção de raríssimas casas que pagam a 7$000.
– Mas é só as costureiras que trabalham em coletes que os senhores vão chamar ao seio da União dos Alfaiates?
– O nosso intuito é organizá-las todas sem distinção de trabalho, mas presentemente as que têm mais afinidades com os alfaiates são as que trabalham em roupas para homens.
– E quantas costureiras há no Rio, de todos os gêneros de trabalho?
– Há um número superior a 10 mil.
– Mas é novo esse movimento reivindicador dessa classe trabalhadora?
– Absolutamente, não. Ainda há pouco tempo as modistas e costureiras de Paris se declararam em greve, exigindo menos trabalho e mais salário, no que foram atendidas graças à coesão e solidariedade em que se souberam manter.
– Quando pretendem os senhores convocar a primeira reunião das costureiras?
– Por enquanto, ainda não marcamos o dia, mas creio dever-se realizar por todo o mês corrente.
– E os alfaiates, qual a sua situação?
A situação dos alfaiates é deprimente, tanto que nós, reconhecendo a gravidade do momento, nomeamos uma comissão para estudar meticulosamente o estado financeiro da classe.
– E quais as impressões que colheu essa comissão?
– Por enquanto, ainda está procedendo ao inquérito, mas é possível que, em breves dias, apresente o relatório dos seus trabalhos.
– Qua atitude tomará a sociedade para conseguir o bem-estar da classe?
Uma vez nós solidamente constituídos, envidaremos todos os esforços de acordo com o momento para atenuar a fome que se apossa, dia a dia, dos nossos companheiros.

Agradecemos a atenção e retiramo-nos satisfeitos.

Os direitos trabalhistas para todos os trabalhadores, como os conhecemos hoje, seriam instituídos décadas depois durante o governo de Getúlio Vargas. No entanto, segundo Carlos Augusto Addor, “existe praticamente um consenso na historiografia a respeito da hegemonia do anarquismo no movimento operário brasileiro […]”, o que nos obriga a valorizar a luta – e o sofrimento – de homens como Maximiano de Macedo e tantos outros imigrantes que vieram fazer a América.

Para saber mais sobre a história do início do movimento operário no Brasil, assista a este documentário de 1976 que apresenta a transformação dos imigrantes nos primeiros operários urbanos e faz uma crônica das greves mais importantes e de outros fatos relacionados desde o fim do século passado até 1922.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

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