Raízes

Tenho recebido perguntas sobre a possibilidade de determinar a origem de antepassados africanos, isto é, a nação ou etnia a que teriam pertencido antes de serem escravizados e trazidos para o Brasil. A resposta que costumo dar é que se trata de uma impossibilidade, porém isso não é uma verdade absoluta.

De facto, descobrir os nomes originais dos antepassados antes que recebessem o batismo cristão em terras brasileiras seria quase uma impossibilidade. Desconheço quem tenha conseguido essa façanha. Porém talvez seja possível, por meio de exames genéticos, descobrir, de modo abrangente, a procedência de antepassados maternos e/ou paternos mais remotos. No primeiro caso, o exame recomendado é o de DNA mitocondrial. No segundo, o do cromossoma Y. O teste de DNA autossômico, embora inespecífico quanto ao costado – materno ou paterno – pode também fornecer alguma pista.

Outra fonte de informações que pode complementar as descobertas eventualmente feitas com os testes genéticos de ancestralidade são as histórias de família. Já publiquei aqui no blogue o caso de uma parente do ramo materno cuja alcunha – apelido no Brasil – remete a uma possível origem angolana. Tais casos podem ser raros, porém vale a pena procurá-los.

Finalmente, existem pistas que podem estar nos assentos paroquiais. Quem tiver a improvável sorte de resgatar a linha familiar até um antepassado escravo recém-chegado – chamado escravo boçal – poderá encontrar, no lugar do apelido/sobrenome uma designação étnica após o nome cristão de batismo, tal como Maria Congo, Pedro Angola, Francisco Benguela e João Mina.

Neste último caso, no entanto, deve-se ter o cuidado de não atribuir valor de verdade aos termos encontrados, pois eles tinham mais a ver com a região onde o antepassado foi embarcado do que com sua origem étnica. O suposto João Mina, por exemplo, poderia ser (da etnia) axanti, ou fanti, ou iorubá, ou hauçá, entre outras. A única informação talvez útil sobre ele é que deve ter sido comercializado no entreposto de São Jorge da Mina, localizado na fortaleza homônima erguida pelos portugueses por volta de 1480 na costa da atual Gana.

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Retratos de Escravos – Johann Moritz Rugendas

Os resultados não são garantidos, mas ter qualquer evidência, ainda que incompleta, é melhor do que não ter nenhuma.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

Categorias: História, Pesquisa

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