Rivalidade

Os assentos paroquiais nos dizem muito sobre a vida de nossos antepassados, mas, com as devidas exceções, trazem apenas informações factuais, tais como datas e locais, além, claro, dos vínculos familiares – pais, avós, tios, irmãos – e de afeto – padrinhos e madrinhas. O que eles não trazem, no entanto, são informações a respeito da vida cotidiana, que podemos encontrar em cartas, periódicos e fotografias, por exemplo.

Uma fonte provavelmente insuspeita para obtenção de informações a respeito da vida de nossos familiares é a literatura – seja ela composta das obras literárias propriamente ditas ou de críticas. Existe em minha árvore um personagem – primo de minha trisavó – que por seus vínculos acadêmicos, sua veia literária e sua vida aventureira acabou sendo citado em algumas obras de cunho crítico. Em uma dessas obras se revela um lado de seu caráter até então desconhecido – o talento para a sátira.

José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870) – o citado personagem – foi estudante de Medicina em Coimbra e contemporâneo de Almeida Garrett (1799-1854).

Litografia de Almeida Garrett por Pedro Augusto Guglielmi (BN de Portugal)

Por razões que desconheço – talvez por ser um homem passional – foi rival de Garret. Pelo menos é o que se lê na página 169 da obra Garrett e o Romantismo (1903), de Theóphilo Braga:

Transcrevemos alguns trechos, que nos revelam a rivalidade de José Pinto Rebello de Carvalho (Alcipo Duriense) que não se conformava com a superioridade de Garrett: “Uma cousa curiosa, todavia, era a rivalidade nutrida por Pinto Rebello a respeito do seu condiscípulo Almeida Garrett. — A edade, porém, de Pinto Rebello, e o talento que lhe não faltava, para a sátira sobretudo, levou-nos também o Seabra (António Luiz, primo de Manoel Ferreira) a uma rivalidade e censura a Garrett, leviana então em nós, que na verdade julgávamos sem saber o quê. Isto em relação á tragedia Lucrecia de Garrett que nenhum de nós tinha visto, e que Pinto Rebello satirisava violentamente segundo o seu costume.

“Qualquer dos dois Sonetos satíricos de Pinto Rebello a respeito da tragedia Lucrécia, de que só tínhamos ouvido fallar, era injustificável: o primeiro, apostrophando o nosso amigo Seabra (Seabrinha então, para distinguil-o de seu primo, o traductor da Zaira, de Voltaire,) começava:

Dize-me Alsino meu, se é verdadeiro
Esse rumor que vae pela cidade,
Que temos para gloria d’esta edade
Novo Racine, Crebillon Tripeiro!

“O resto do Soneto não é digno de copiar-se, ainda que não deixava de ter merecimento, simplesmente como mera sátira, sem referencia á justiça ou decência da mesma. O segundo Soneto era inferior em merecimento poético, e o final irreproduzivel pelo indecoroso.”

À menção ao “talento […] para a sátira”, se junta a citação seguinte, na página 179, com meus destaques, sobre um texto satírico composto por Pinto Rebello sobre o epicédio – discurso ou poema recitado em memória de pessoa notável – que Garrett escrevera em homenagem a José Fernandes Alves Fortuna, respeitado lente liberal de Coimbra que faleceu em 1819:

Na carta de António Ribeiro Saraiva, já referida, allude-se a uma parodia ao Epicedio de Garrett: “Não se pode negar ao Pinto Rebello o génio da Sátira; e é pena que elle o não exercitasse mais. Muito sinto eu ter perdido, por exemplo, o fragmento — era quasi metade — da parodia satírica que elle fez aos versos de Garrett á morte do lente Fortuna, que os condiscípulos me diziam gracejando que eu o tinha matado; porque chamando-me a dár lição, quando eu tinha começado perguntou-me: – E a rasão. … ra…zão…ra…? — E cahiu para traz na cadeira, sem sentidos; levando-o os estudantes a casa sobre os hombros, e sendo Garrett o primeiro, ou um dos primeiros a accudir-lhe e a leval-o a casa, na esquina da rua da Mathematica com a Couraça dos Apóstolos.

Essas informações permitam acrescentar à natureza criativa e aventureira desse meu primo distante um aspecto aparentemente menos sisudo.


José Araújo é linguista e genealogista amador.