Quilombo

Informações importantes para a genealogia são comumente obtidas por meio de conversas com familiares. Assim foi durante meu encontro com uma prima de segundo grau – filha de uma prima de minha mãe – que revelou um facto surpreendente: na década de 1970, minha tia Ruth teria tentado convencer os maridos de suas irmãs e primas a adquirir terras em Austin, Baixada Fluminense, que teriam constituído um quilombo. Essas terras, segundo minha tia, pertenceriam à família Pereira Belém.

Quilombos foram comunidades compostas por fugitivos da escravidão e também por índios e desertores militares que se estabeleceram
por todo o território brasileiro no entorno de fazendas – e mesmo dentro delas – e de cidades. Segundo o historiador Flávio dos Santos Gomes, o termo apareceu “na documentação colonial no final do século XVII”, sendo precedido pelo vocábulo mocambo, que já era empregado nas primeiras décadas da colonização, o que atesta a antiguidade desse tipo de coletividade.

De fato, essas comunidades, junto com insurreições, rebeliões, fugas e até assassinatos, constituíram uma das formas possíveis de protesto contra a sociedade escravista. Embora a fuga fosse a forma mais frequente de resistência, nem toda fuga de escravo gerava um quilombo e nem todo fugitivo buscava refúgio em um quilombo já existente.

Houve, ainda segundo Flávio dos Santos Gomes , diferentes tipos de quilombo em relação à forma como seus habitantes se integravam (ou não) à economia regional e se relacionavam com as populações de seu entorno:

foi Décio Freitas quem propôs uma tipologia em termos econômicos. Haveria sete tipos de quilombos. Os principais seriam os agrícolas existentes em toda parte; já aqueles extrativistas proliferavam nas regiões amazônicas e havia aqueles denominados mercantis que realizavam trocas que alcançavam grupos indígenas e regatões. Em áreas de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás prevaleceram os quilombos mineradores; enquanto no Sul, no Rio Grande, se estabeleceram os quilombos pastoris. Nas cidades se destacaram os quilombos suburbanos classificados como de serviço. E em diversas regiões prosperaram pequenos quilombos itinerantes, que viviam de saques, sendo denominados predadores. Mas tipologias não podem ser vistas como camisas de força, já que os vários tipos de quilombos eram transformados e ao mesmo tempo transformavam as paisagens onde se estabeleciam.

Três fatores caracterizavam os quilombos: a invisibilidade e a mobilidade, necessárias em vista da perseguição empreendida pelos proprietários; e a integração com as comunidades próximas, que se tornavam consumidoras dos produtos das roças e das frutas silvestres negociados pelos quilombolas com taberneiros, viajantes e escravos de ganho, segundo Flávio dos Santos. O historiador afirma ainda que essa integração pode explicar a enorme proliferação – incomum em outras áreas escravistas das Américas – das comunidades de fugitivos no Brasil.

A fim de buscar confirmação para a história que ouvi de minha prima, e diante da inexistência de documentos, recorri à Lei de Acesso à Informação e fiz uma consulta à Fundação Cultural Palmares, fundada em 22 de agosto de 1988 pelo Governo Federal com o objetivo de promover e preservar a arte e a cultura afro-brasileira e também emitir certificações para comunidades quilombolas, garantindo a essas comunidades acesso aos programas sociais do governo.

Em resposta, a FCP recomendou a consulta ao documento que relaciona as comunidades quilombolas já certificadas. Nesse documento não consta nenhuma comunidade reconhecida na localidade de Austin. Isso não invalida a história que ouvi de minha prima, porém sinaliza que talvez algo importante tenha se perdido entre as gerações de minha família materna.


José Araújo é linguista e genealogista amador.