Lendas

Sempre ouvi dizer que esta Santa em Vida foi muito mal tratada pelo homem. E que depois de estar sepultada mais de sete anos, o cunhado, que era o coveiro, ao abrir a cova para enterrar lá outro familiar, viu que a mulher estava em carne viva. Chamou então lá o homem dela, e conta-se que ele foi lá com um sacho e que lhe disse:
— Ó grande p…, ainda aí estás?
E deu-lhe com o sacho. Foi assim que ouvi.

PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro – Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.133-134

Este breve relato foi feito por Serafim dos Santos Aguiar, morador de Barcos, Tabuaço, Viseu, ao professor e pesquisador português Alexandre Parafita, que tem extensa obra publicada sobre o patrimônio e tradição oral portuguesa. Barcos, como o leitor deste blogue deve saber, é a terra de origem de meu avô paterno. A mulher de que se fala no relato oral foi Maria Adelaide de Sá Meneses, prima de segundo grau de minha bisavó paterna.

Maria Adelaide (1826-1878), filha do Alferes José de Meneses Sá Almeida -, descendente dos Amados, uma família com profundas raízes na nobreza portuguesa – e de Teresa Amália, filha e neta de médicos, parece ter sido uma mulher de muitas posses. Mas morreu sem filhos e, rezam as lendas, teve um casamento infeliz. É o que parece indicar outro relato, este feito por Etelvina da Conceição, também moradora de Barcos, na obra citada anteriormente:

Havia uma mulher em Barcos, chamada Maria Adelaide, que sofreu muito em vida. Era muito religiosa, mas tinha um homem que era muito mau para ela, tão mau que nem à missa a deixava ir. Diz que morreu ao ser empurrada por ele para dentro de um poço.
Ao cabo de sete anos de estar sepultada, e como era costume, foram lá abrir a cova para sepultar outra pessoa da família. Ora, o coveiro, que era cunhado dela, ao espetar o ferro na sepultura, ouviu uma voz vinda de lá do fundo que disse:
— Não me mates!
Depois foram a ver o corpo e descobriram que ela ainda estava inteira. A terra não a tinha comido. O cabelo continuava a crescer e as unhas também. Foi colocada num mausoléu, onde muita gente vai rezar. O cabelinho e as unhas ainda lhe continuam a crescer e há lá uma senhora que tem de lhas ir cortar de vez em quando.
É adorada como santa, mesmo contra a vontade dos padres. Chamam-lhe a Santa Maria Adelaide. Uma senhora que tinha uma filha desenganada dos médicos prometeu que, se ela curasse, a iria lá vestir de noiva. É como está, com sapatinhos e tudo.

Os leitores atentos e recentes – não os mais antigos por aqui – devem ter percebido que existe algo estranho a respeito de Maria Adelaide. E existe mesmo: reza a tal lenda que Maria Adelaide opera milagres, como o descrito no relato de Etelvina da Conceição. Tive a sorte de descobrir há algum tempo em minhas pesquisas essa personagem tão curiosa que foi alçada à condição de santa pela crença popular.

E tive sorte de também encontrar os relatos acima, que foram compilados por Parafita e depois reunidos na base de dados Lendarium, um dos produtos desenvolvidos pelo Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO), criado em 1994 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve para investigar na área da Literatura Oral. Não é sempre que se pode contar com uma base de dados de relatos orais para escrever um capítulo da história da família, portanto essa é uma descoberta para ser comemorada.

A título de curiosidade, eis outro relato – feito por Maria Isabel Araújo – encontrado na citada base Lendarium e que acrescenta um sabor especial à vida da surpreendente Maria Adelaide:

A minha avó que morreu com noventa e um ano conheceu-a e falou-me a mim sempre nela. E a minha mãe ainda se lembrava de a desenterrarem pela segunda vez, porque primeira vez, como estava intacta, tornaram-na a lá pôr. É que, de sete em sete anos, abre-se a cova para pôr outra pessoa. Mas ela, nesses anos, estava consante foi, roupinha e tudo. Depois, noutra altura, quando chegou a época de enterrar outra pessoa, não sei se era família se o que era, então ela estava na mesma.
A minha mãe, que era criança, lembrava-se que ela esteve uns dias ali atrás do muro [aponta para o cemitério], com o caixão. As pessoas iam lá vê-la. Ela tem aqui, salvo seja [junto à boca], isto esmoucado p’ra dentro. Houve quem dissesse que foi de propósito, mas nisso não acredito eu. Claro, ao desenterrarem-na, espetaram o ferro. Tinham de espetar nalgum lado. Foi na boquinha.
Agora ali está. Ainda conheci uma senhora que vinha de Tabuaço cá vesti-la e que dizia que via as unhas e o cabelo crescer. E como de facto, o cabelo tem-no assim por aqui [pelo meio do corpo].
E não vai há muito, estive com uma rapariga do meu tempo, pouco mais nova do que eu que vinha cá muita vez ajudar a compô-la, e que disse:
— Olha que até o pelinho da pombinha lhe crescia!
Desculpe, senhor professor, olhe que é com muito respeito que lho digo. Eu tenho 76 anos.


José Araújo é linguista e genealogista amador.