Histórias

A pesquisa genealógica é baseada em documentos, como tenho explicado em todos os textos publicados até agora. Mas ela se alimenta também de outras fontes, entre elas as histórias de família. Toda família tem as suas, que são transmitidas de geração em geração, embora nem sempre as gerações mais novas deem a elas o devido crédito.

Mas deveriam dar, se considerarem que um dia poderá surgir a necessidade ou a oportunidade de obtenção de cidadania para emigração. Minha experiência tem mostrado que, infelizmente, quando essa necessidade ou oportunidade surge, os interessados não têm os documentos de seus antepassados, não sabem onde localizá-los e não podem mais obter informação de primeira mão, pois seus antepassados já faleceram.

Tive o azar de experimentar a falta de documentos e de informações objetivas – a origem exata de meus avós paternos ou a data de sua chegada ao Brasil, por exemplo -, porém tive a sorte de ouvir algumas poucas histórias de família. E tive a sorte maior de receber meu nome em homenagem a um tio que se orgulhava da história da família e fez questão de deixar um breve relato em forma de carta – leia aqui. Graças a essa carta, pude buscar as informações que me permitiram começar a reconstruir essa história século a século.

Duas dessas histórias me veem à memória agora: a primeira, que ouvi de minha mãe, informava que a diferença de idade entre meus avós paternos era enorme. A segunda, que ouvi muito tempo depois de uma tia paterna, informava que meu bisavô morrera atingido por um raio quando voltava para casa após um dia de trabalho na lavoura.

Embora histórias como essas possam ser ouvidas com desconfiança e até parecer pouco úteis para a pesquisa genealógica, elas podem revelar seu valor na hora de desfazer dúvidas quando encontramos assentos do mesmo lugar e época com nomes parecidos. Em minha pesquisa, não houve ambiguidades, mas as histórias me permitiram certeza na hora de avaliar os dados dos assentos de casamento de meus avós paternos e de óbito de meu bisavô paterno.

As imagens e transcrições abaixo comprovam que as histórias estavam fundamentadas em fatos.

Antonio Pinto e Josepha_2
Assento de Casamento de Antonio Maria Pinto de Araújo e Josefa Rebosa – 8/11/1918 – Nova Iguaçu, Brasil

[…] em 8 de novembro de 1918, ele natural de Portugal, com 50 anos de idade, viúvo, proprietário e residente neste distrito, filho legítimo de Manoel de Araújo Motta e Luisa Pinto de Araújo, ela natural de Portugal, com 18 anos de idade, solteira, de serviços domésticos, residente neste distrito, filha legítima de Luis Rebouças e Maria Benedita Rebouças. Apresentaram os documentos exigidos pela lei […]

Óbito de Manoel de Araújo Motta
Assento de Óbito de Manoel de Araújo Motta – 20/05/1861 – Viseu, Portugal

[Manoel de Araújo Motta, casado com Luisa de Macedo Pinto] Aos 20 dias do mês de maio do ano de 1861, nesta freguesia de Barcos, concelho de Tabuaço, diocese de Lamego, no sítio [dos] Souto do Amaral, às 4 horas da tarde, faleceu de um raio, sem poder receber os sacramentos, um indivíduo do sexo masculino por nome Manoel de Araújo Motta, de idade de 53 anos, casado com Luisa de Macedo Pinto, natural desta freguesia, morador na Rua da Fonte, filho legítimo de Júlio de Araújo e Maria Motta, já defuntos. Não fez testamento, deixando filhos e foi sepultado na antiga igreja de Sabroso por não haver cemitério público. E para constar se lavrou em duplicado este assento que assino era ut supra. O abade Antonio Augusto Tavares

Foi muito emocionante encontrar esses assentos e comprovar as histórias que ouvi. Se pudesse dar um conselho aos jovens de hoje, seria este: deixem de lado o celular por algumas horas, sentem-se com seus tios idosos e avós e conversem com eles sempre que possível. Não só pela razão que expus acima, mas porque faz bem a eles, os faz sentir vivos e participantes da vida familiar.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

3 comentários

  1. […] se tornar um problema para a correta escrita da história da família quando não há documentos ou relatos que permitam a correta […]

  2. […] texto anterior, abordei a importância dos relatos, histórias ou causos de família para a pesquisa genealógica. […]

  3. […] havia nascido em Portugal. O que sabia a respeito dela havia sido descoberto por meio de relato oral de uma irmã de meu pai: sabia que Maria Rebosa era casada com Joaquim dos Santos e que tivera […]

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