Brasões

374px-Araujo_coat.svgConheci algumas pessoas que tinham em casa, em lugar de destaque, como se fosse um quadro decorativo, um brasão com o sobrenome de família. Apenas a título de brincadeira, ilustro este texto com o que poderia ser o brasão de minha família, a família Araújo, para ficar apenas com o único sobrenome de meus antepassados que herdei.

Brasões são objeto de estudo da Heráldica, a disciplina que se dedica ao conhecimento da origem, dos significados e das funções desses emblemas representativos de pessoas, famílias, localidades e empresas. Historicamente, os brasões – o nome completo é brasões de armas – passaram a ser atribuídos, a partir da Baixa Idade Média, a indivíduos que se destacavam por sua bravura, fidelidade e serviços prestados a uma casa real. O funcionário do rei responsável pelos brasões era chamado de Rei de Armas, e era ele que fazia o registro dos brasões no livro das chancelarias régias.

Em Portugal, o uso do brasão normalmente ficava restrito a quem o recebesse, excluindo seus descendentes, embora algumas linhagens adquirissem o direito hereditário de continuar a usá-los. Quem adquiria esse direito por meio de mais de um antepassado acabava possuindo brasões complexos, com muitos elementos. O da família Araújo, como se vê acima, é bastante simples.

Não apenas nobres recebiam brasões, mas, uma vez que alguém adquirisse o direito de usar um, sua situação social passava a se confundir com a da nobreza. Durante a Monarquia em Portugal, de 1139 a 1910, apenas mediante rigorosa pesquisa genealógica era possível adquirir a concessão do uso de um brasão de família.

Os brasões delimitavam os domínios de uma família sobre suas propriedades (casas e sepulturas), obras de arte, trajes de seus criados e relógios, entre muitos outros. Em algumas famílias, durante o Liberalismo (de 1777 a 1926), havia o costume de usar, de forma semelhante, marcas identificadoras, embora essas não possam ser confundidas com brasões no sentido estrito.

Como os brasões portavam os sobrenomes dos indivíduos agraciados com a honraria real, é muito provável que tenham contribuído para fixar esses sobrenomes, pois seus descendentes devem ter buscado assegurar a identificação com o antepassado ilustre. De qualquer forma, quem hoje encontra seu sobrenome em um brasão antigo não deve jamais pressupor o direito de usar o tal brasão sem uma pesquisa genealógica rigorosa.

A Heráldica tem importância relativa para a pesquisa genealógica, pois muitos dos estudos genealógicos feitos em tempos antigos para concessão do uso de brasões apresentavam erros intencionais. A interpretação dos brasões não é algo trivial, pois exige conhecimentos históricos muito específicos, que apenas alguém especializado em Heráldica poderia ter. Em Portugal apenas o Instituto da Nobreza Portuguesa está hoje habilitado a emitir pareceres sobre assuntos de Heráldica.

Ter um brasão na sala para mostrar aos amigos é válido como brincadeira e para despertar a curiosidade sobre a história da família. Mas é só isso mesmo.


José Araujo é linguista e genealogista amador.

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