Apelidos

Ter sobrenome – ou apelido, como se diz em Portugal – é hoje normal. Em tempos remotos, no entanto, eles nem mesmo existiam e, quando passaram a existir, demoraram muito tempo para se tornar obrigatórios. Em Portugal, por exemplo, isso apenas ocorreu, a partir de 1928, embora seu uso fosse regulamentado desde 1911.

Em períodos diversos da história, uma pessoa poderia não ter um sobrenome oficialmente reconhecido, poderia ser reconhecida por sua filiação – Fulano (filho) de Sicrano – ou poderia ainda receber uma alcunha relacionada com uma característica física – Fulano Pequeno – ou psicológica – Beltrano Furioso. Imagine as dificuldades que isso traz hoje para a pesquisa genealógica!

O mais comum desde que os assentos paroquiais começaram a existir, nos informam Queiroz e Moscatel, foi a ausência de regras para registro dos nomes e sobrenomes. Assim, segundo Maria Antónia Lopes, irmãos poderiam ter nomes e sobrenomes distintos de acordo com os antepassados que os pais tenham desejado homenagear.

Em determinado momento, os sobrenomes paternos começaram a se fixar, porém em posição anterior aos maternos – ao contrário do que ocorre hoje. Nas áreas rurais, o pai transmitia seu sobrenome aos filhos do sexo masculino enquanto a mãe o transmitia às filhas, o que permitia a continuidade dos sobrenomes de ambos os costados.

Posso citar um exemplo de minha própria árvore familiar: a jovem Anna Maria, filha de Lourenço Vieira e Maria Barros de Carvalho e depois viúva de José Gonçalves Rebosa, todos meus antepassados em Portugal, foi registrada de três formas diferentes nos assentos relacionados a ela:

  • Como Anna Maria no assento de batismo, sem o sobrenome, como era normal:

Anna Maria, filha legítima de Lourenço Vieira e de Maria de Carvalho, neta pela parte paterna de Pedro Vieira e de Ana Lopes, da freguesia de São Domingos de Favaios, e pela materna de Francisco de Barros e Maria de Carvalho, nasceu aos 14 de abril de 1765 e foi batizada e [] os santos óleos aos 21 do mesmo mês. Foram padrinhos Mathias Teixeira e Anna Maria Teixeira. Para constar fiz este termo que assino de minha letra em presença das testemunhas, o padrinho e Manoel Ribeiro de Sousa, assino [incompreensível] da madrinha, dia, era ut supra.

  • Como Anna Maria Lopes de Carvalho (sobrenomes da avó paterna e da mãe, respectivamente) no assento de casamento:

José Gonçalves Rebosa, filho legítimo de Domingos Gonçalves Rebosa e de Maria Gonçalves, e Anna Maria Lopes de Carvalho, filha legítima de Lourenço Vieira e de Maria de Carvalho, desta freguesia de São Mamede de Ribatua, depois de feitas as denunciações na forma do sagrado concílio tridentino, contraíram o sacramento do matrimônio em presença de mim, padre Caetano Teixeira, cura da referida freguesia, e [logo] as bênçãos aos 12 de abril de 1779 anos, do que foram testemunhas João Rodrigues e Carlos José e Matias Teixeira de Moraes e Manoel Lopes e outras muitas mais que se acharam presentes, todos desta freguesia, que todos aqui assinaram, dia, mês, era ut supra.

  • E, finalmente, como Anna Barros (sobrenome do avô materno) em seu assento de óbito:

Anna Barros, viúva que ficou de José Gonçalves Rebosa, depois de ter recebido os sacramentos da hora da morte, faleceu no dia 8 do mês de agosto de 1834. Foi sepultada no dia seguinte em ofício e fez testamento. Era ut supra.

Observe que em nenhum dos registros seu nome incorporava o sobrenome de seu pai ou de seu marido. A adoção do sobrenome do marido, nos informa Maria Antónia Lopes, apenas se tornou prática no fim dos 1800 e entre as elites, pois até então nem as portuguesas nem as espanholas seguiam essa prática comum em outros países europeus.

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Sobrenomes mais comuns – Fonte: minha árvore de costados, lado paterno

Para não correr o risco de acabar incluindo por engano na própria genealogia um homônimo – pessoa com o mesmo nome e sobrenome vivendo no mesmo local e época ou mesmo um irmão falecido que teve o mesmo nome – é preciso fazer um processo de triangulação, ou seja, verificar a coincidência nos nomes dos pais e avós (cotejando assentos de batismo e casamento) e do cônjuge (cotejando assentos de casamento e óbito). A análise de assentos de irmãos do antepassado, como sugeri em outro texto, também é importante, pois esses assentos poderão conter informações que ratifiquem outras já encontradas nos assentos do antepassado.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

3 comentários

  1. […] o uso de sobrenomes ainda não era sujeito a regras formais, era comum que uma pessoa tivesse sua alcunha identificada em registros paroquiais. Foi o que […]

  2. […] escapar das perseguições, os cristãos-novos adotavam sobrenomes patronímicos como Nunes, Rodrigues e Simões e assim se tornavam indistinguíveis da maioria cristã. Segundo […]

  3. […] o nome pela pessoa analfabeta e esta apenas interpunha uma cruz entre seu nome e sobrenome (apelido, como se diz em Portugal). Dessa forma, a caligrafia da assinatura será evidentemente a da pessoa […]

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