Nascimento

Aos 23 dias do mês de dezembro do ano de 1794, batizei solenemente a Júlio, que tinha nascido em 14 do dito mês, filho legítimo e primeiro casamento de Manoel de Araújo e Luisa do Amaral, desta freguesia colegiada de Barcos, neto pela parte paterna de Manoel de Araújo e sua mulher Quitéria Maria de Macedo, e pela materna neto de Luis do Amaral e sua mulher Maria Clara, todos os nomeados naturais desta dita freguesia de Barcos. Foram padrinhos o padre José Pereira da Motta e sua irmã Maria Theresa, tios pela parte materna do mesmo batizado.

Nascer era um processo que ocorria dentro do lar, na proteção da família. De fato, até o século XIX, a mulher paria em casa, com auxílio de uma parteira ou vizinha experiente. Parir em hospital – da mesma forma que morrer em hospital, como veremos em outro texto – era reservado para mães solteiras, prostitutas ou indigentes, mulheres que, de alguma forma, se encontravam apartadas de suas famílias.

O batismo deveria ocorrer pouco tempo – às vezes dias – depois do nascimento, pois temia-se que a criança morresse sem esse sacramento e acabasse vagando pelo limbo. Além disso, no campo, era comum acreditar que crianças não batizadas atraíssem malefícios para dentro da família. Para evitar que a criança morresse sem o batismo, as parteiras e madrinhas eram instruídas a ministrar batismos de emergência,  até que fosse possível a realização do batismo oficial, sub conditione, na paróquia.

A escolha dos padrinhos poderia ocorrer dentro da família – entre irmãos, tios e avós – ou fora dela, quando se escolhiam pessoas que os pais acreditavam poder oferecer a seus filhos melhor condição na vida. No assento de batismo transcrito acima, de meu trisavô paterno, declara-se que o padrinho, tio da criança, era padre, o que pode sugerir que havia planos de que o jovem seguisse a vida eclesiástica. O original pode ser visto abaixo.

Batismo de Julio de Araujo

Assento de Batismo de Júlio de Araújo – 23/12/1794 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Nos próximos três textos, abordarei o status dos filhos naturais ou ilegítimos, o processo de legitimação, e, por fim, um caso curioso descoberto em minha árvore pessoal.


José Araujo é linguista e genealogista amador.

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