Médicos

“Médico” desde sempre foi coisa rara e cara. Era aquele que “curava e aplicava remédios”, segundo o dicionarista Bluteau. Em Portugal, a ciência se dividia em dois ramos: um erudito, exercido por médicos formados, outro, mais prático, desempenhado por cirurgiões, barbeiros e parteiras, que realizavam sangrias, extraíam dentes e, quando possível, tratavam de ossos quebrados. | Mary Del Priore – Histórias da Gente Brasileira – Volume 1

Esse trecho da obra de Mary Del Priore deixa clara a divisão que havia entre médicos e cirurgiões desde a Idade Média. Ao médico, que dependia de uma formação acadêmica, cabia um exercício de natureza intelectual, portanto mais nobre. Ao cirurgião, que dependia de uma formação prática, como aprendiz de alguém mais experiente ou em um hospital, cabia um exercício de natureza manual, mecânica, um ofício menor, desqualificado.

Médicos se dedicavam à cura de doenças internas, prescreviam medicamentos, ao passo que cirurgiões aplicavam sangrias, curavam ferimentos, extraíam balas e faziam cirurgias e procedimentos que dependiam essencialmente de sua destreza manual. Como havia menos médicos do que cirurgiões, a concorrência entre estes era grande, e a oportunidade de ascensão social e econômica, pequena.

A distinção entre esses dois ramos da área da Saúde apenas se abrandou a partir do fim do século XVIII com a mudança de mentalidade trazida pelo Iluminismo e sua valorização do saber empírico oriundo da observação e da experimentação, em outras palavras, com o surgimento da ciência moderna. Foi, então, a partir do século XVIII que Medicina e Cirurgia se aproximaram.

Feito esse preâmbulo, vamos ao que interessa.

No curso de minha pesquisa genealógica, encontrei o assento de óbito de Antonio Pinto Rebello, natural de Barcos, em Tabuaço, Viseu, antepassado direto de sexta geração.

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Óbito de Antonio Pinto Rebello – 1/06/1808 – Tabuaço, Viseu

O interessante nesse assento é o fato de a ele estar atribuída o que eu acreditava ser a alcunha de cirurgião.  A transcrição pode ser vista abaixo:

Ao 1º de junho do ano de 1808 faleceu da vida presente Antonio Pinto Cirurgião, viúvo que ficou de Jerônima de Araújo e natural desta freguesia, indo ou sendo chamado a Távora para ver o abade da mesma freguesia de São João Batista de Távora [] um [acidente] em [casada] do dito abade morreu de repente sem receber algum dos sacramentos e foi sepultado na dita igreja de São João Batista de Távora e não fez testamento, [deixando] herdeiros dois filhos: José Pinto e Francisco Pinto e para constar fiz este termo de assento dia, mês e ano ut supra. – o pároco Serafim Duarte dos Santos

Como informa o assento, Antonio Rebello teve com Maria Josefa, sua primeira mulher, dois filhos: José Pinto [do Souto Rebello] e Francisco [José] Pinto – seus nomes completos aparecem em outros assento encontrados. Depois que ficou viúvo, por volta de 1786, embora já tivesse alguma idade,  casou-se com Jerônima Maria de Araújo. O fato curioso a respeito desse segundo casamento, como se vê no assento abaixo, é a menção a uma testemunha claramente identificada como médico – o doutor Manoel Ferreira de Amorim.

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Casamento de Antonio Pinto e Jerônima Maria – 20/11/1786 – Tabuaço, Viseu – p. 1
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Casamento de Antonio Pinto e Jerônima Maria – 20/11/1786 – Tabuaço, Viseu – p. 2

A transcrição pode ser lida abaixo:

Aos 20 dias do mês de novembro do ano de 1786, nesta igreja colegiada de Nossa Senhora da Assunção da vila de Barcos, na forma que determina o concílio tridentino e constituição e pastorais deste bispado, com licença do [] doutor provisor deste bispado, se receberam em face de igreja na minha presença e testemunhas ao diante nomeadas, Antonio Pinto, viúvo de Maria Josefa, filho legítimo de José Pinto e Anna Rodrigues, e Jerônima Maria de Araújo, ambos naturais e moradores nesta dita freguesia, e a dita contraente é filha legítima de Manoel Fernandes Cravo e Maria de Araújo, e pela parte desta é o primeiro casamento, mas é segundo pela parte dele, dito Antonio Pinto. Foram testemunhas presentes José Antonio da Costa, o doutor médico Manoel Ferreira de Amorim, Manoel Antonio de Macedo e outras muitas mais pessoas, homens e mulheres. E por verdade fiz este assento que assinei com as testemunhas. José Bernardo do Amaral e o sacristão padre Mathias Pereira. Dia, mês e ano ut supra. – o vigário Geminiano [] da Costa

O mesmo doutor Manoel Ferreira de Amorim é citado no assento de casamento de José Pinto [do Souto], filho de Antonio Rebello e sua primeira mulher Maria Josefa, com Bárbara Theresa Ribeiro.

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Casamento de José Pinto e Bárbara Theresa – 10/06/1786 – Tabuaço, Viseu – p. 1
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Casamento de José Pinto e Bárbara Theresa – 10/06/1786 – Tabuaço, Viseu – p. 2

A transcrição está abaixo.

Aos dez dias do mês de junho do ano de 1786, nesta igreja colegiada de Nossa Senhora da Assunção de Barcos, na forma do concílio tridentino e pastorais deste bispado, se receberam na minha presença e das testemunhas adiante assinadas, José Pinto do Souto, filho legítimo de Antonio Pinto Cirurgião e Maria Josefa, com Barbara Theresa Ribeira, filha legítima de Manoel Fernandes e Luisa Ribeira, natural de Tabuaço e a sobredita Maria Josefa, mãe do contraente José Pinto, era natural da freguesia de Santa Leocádia, a cujo casamento assistir por me apresentarem licença do [] doutor provisor deste bispado. Foram testemunhas presentes o doutor médico Manoel Ferreira de Amorim Monteiro, sua mulher dona Maria, o padre Antonio Nunes, o padre Caetano José da Fonseca e outras muitas mais pessoas, homens e mulheres. E por verdade fiz este assento que assinei. Dia, mês e ano ut supra. – o vigário Geminiano [] da Costa

Ainda que a constante presença de Manoel Amorim em eventos importantes da vida de Antonio Pinto possa ser uma coincidência produzida pelo fato de serem vizinhos ou amigos de longa data, é tentador supor isso se devesse a algum tipo de relação pessoal resultante do ramo de atuação profissional de ambos – uma aproximação de fato e afeto entre Medicina e Cirurgia. Mas isso é apenas uma suposição até este momento.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

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