Plymouth

Em texto anterior, descrevi as agruras por que passaram na Inglaterra os exilados que tiveram de fugir da perseguição do regime absolutista de d. Miguel em Portugal por apoiarem a constituição liberal de 1822. Entre esses exilados estava José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), primo de minha trisavó paterna.

Enquanto naquele texto recorri a um estudo acadêmico e a um periódico editado por esse meu primo distante para que pudéssemos entender o sofrimento do exílio na perspectiva do exilado, neste texto recorro a um jornal da época – a edição de 5 de dezembro de 1828 do London Courier and Evening Gazette, para resgatar a perspectiva da comunidade que recebeu os exilados – os habitantes da cidade inglesa de Plymouth.

O texto da matéria publicada, exibido abaixo, foi obtido na base de dados The British Newspaper Archive, que contém registros que datam desde 1700.

londoncourier
London Courier and Evening Gazette – sexta-feira, 5 de dezembro de 1828

Aqui minha tradução livre desse texto, com meus destaques:

OS CONSTITUCIONALISTAS PORTUGUESES

PLYMOUTH, 3 de dezembro. Ao serem informados da proposta de dispersão dos refugiados portugueses, residentes neste município e vizinhanças fizeram um requerimento para convocar uma assembleia e o encaminharam ao prefeito (R. Freeman, MD). O prefeito acatou o requerimento e ontem foi realizada uma assembleia de bom público no Guildhall, com o objetivo de considerar a conveniência de transmitir o sentimento geral ao Governo de Sua Majestade e tentar evitar a calamidade que ameaçava os portugueses. O prefeito abriu a assembleia, que iniciou pela leitura do requerimento – H. Woolcombe, apresentou várias propostas, que expressavam a melhor opinião a respeito dos portugueses e de sua conduta desde que se tornaram residentes em Plymouth; bem como o desejo geral de que os deixassem permanecer na cidade, tanto por conta de seus sofrimentos na causa da liberdade constitucional quanto por sua boa conduta, e também por causa dos benefícios que sua presença trazia para a cidade. Ele disse que considerava a questão passível de ser gerida pelos habitantes, que deveriam reunir-se e expressar seus sentimentos ao Governo. Ele se absteve de adotar uma visão política sobre a questão, mas, ao mesmo tempo, não deveria se eximir do exercício de um dever público; portanto, ele se apresentou para expressar sua opinião; e se isso ofendia este ou qualquer outro Governo, ele acreditava que o povo tinha o direito de expressar suas queixas sobre os problemas que os afligiam. (Aplausos.) De uma hora para outra, chegaram ao conhecimento dos habitantes de Plymouth os planos de dispersar os portugueses por outros lugares do reino. Ele perguntou: por que eles teriam de ser separados? Por que dispersados? Certamente, as leis do país devem ser obedecidas; mas qual lei determinava a dispersão dos portugueses? Era, portanto, dever dos que ali se reuniam enfrentar o Governo contra a adoção de tal medida. Eles também deveriam olhar a questão sob dois aspectos – primeiro, como habitantes de Plymouth e, depois, como ingleses. Qual seria o caráter da cidade se esses Refugiados fossem assim dispersados sem que os habitantes pudessem expressar sua opinião sobre o assunto? E qual seria o seu caráter, como ingleses, se tal dispersão viesse a ocorrer? Em tempo de guerra, mesmo aos prisioneiros capturados do inimigo era garantida a liberdade condicional em determinadas cidades; então e por que esses Refugiados seriam separados? Eles foram expulsos de seu próprio país por defender a liberdade constitucional tão apreciada neste país; e, por essa razão, merecem nossa simpatia e proteção. As propostas foram postas em votação; e, com as mãos levantadas, todos foram unânimes em aprová-las. Outras propostas foram então apresentadas; e, após o grupo ter ouvido os apartes de J. Bird, Esc., do Rev. Rowe, do Capt. Pym, R.N. e de J.H. Macauley, Esc., aprovou-se, com unanimidade: “Que um Apelo, baseado nas propostas, seria apresentado pelos Vereadores do Município ao Secretário de Estado do Departamento do Interior após ser assinado por todos os habitantes”. Foram apresentadas moções de agradecimentos ao presidente da sessão. Em seguida, um dos refugiados dirigiu-se ao grupo, na língua inglesa, para agradecer pelo apoio em favor de seus compatriotas e disse que esse apoio ficaria gravado em sua memória mesmo muito tempo depois do seu retorno a Portugal, em algum momento futuro. Ele também transmitiria as palavras de apoio a seus compatriotas – os quais, enquanto estivessem na Inglaterra, se comportariam de tal maneira que, ele assim esperava, receberiam a aprovação dos habitantes de Plymouth e de toda a Inglaterra.

O aspecto mais interessante dessa matéria é o fato de que ela informa que os exilados portugueses contavam – ou passaram a contar – com a simpatia dos habitantes de Plymouth – ou ao menos de alguns deles -, o que contrasta com o relato apresentado por Victorino Nemesio, já citado no texto anterior, mas citado novamente a seguir:

Tinham chegado reduzidos a uma desesperada penúria. Os ingleses, surpreendidos por aquele bando maltrapido, deitavam-lhes olhares onde alternavam o desprezo e alguma compaixão. Mas esta rendia pouco. Só os quakers se cotizavam e lhes faziam facilidades; os demais fechavam-se numa indiferença perfeita e um tanto quanto agastada. (Exilados – 1828-1832: História Sentimental e Política do Liberalismo na Emigração –  Victorino Nemésio – p. 51)

Poderíamos supor, com base nesses dois textos, que, inicialmente, a chegada dos ‘maltrapidos’ exilados/refugiados tivesse despertado rejeição nos habitantes daquela cidade portuária e que, com a convivência cotidiana, estes puderam levar em conta as privações que os estrangeiros sofriam e entenderam que seria necessário apoiá-los, afinal partilhavam os mesmos valores políticos e filosóficos.

Não tenho evidências das consequências práticas, para os portugueses, do apelo feito pelos seus anfitriões involuntários. Porém é importante destacar que a descoberta da matéria apresentada aqui me ofereceu nova perspectiva sobre a experiência do exílio por que passou o meu parente na primeira metade do século XIX.


José Araújo é linguista e genealogista amador.