Patronímicos

“Numa época de comunicações alargadas, que todos sentimos ser dissolvente das culturas nacionais, manifesta-se a pujança do carácter português nesta sua particularidade: a afeição ao nome integralmente conservado, com todos os componentes que as gerações passadas foram conquistando no decorrer dos tempos” | Os Apelidos Portugueses: um panorama histórico – Carlos Bobone

Mesmo após a decadência do sistema romano e a vulgarização da onomástica germânica que foram citadas no texto anterior,  não se poderia dizer que existissem, no território que se tornaria Portugal, apelidos/sobrenomes exatamente como os temos hoje. Diante da necessidade de identificação e distinção individual na sociedade, tornou-se comum a adoção de nomes próprios com função genealógica, em geral nomes de ascendentes, mais frequentemente o nome do pai – nas aldeias do interior podia ocorrer o uso do nome materno como apelido não oficial (assim existiam o José da Inês e o Pedro da Joana), embora não haja muitos casos desses que tenham sobrevivido ao tempo.

A composição do apelido a partir do nome paterno não foi um fenômeno exclusivo da cultura portuguesa. Cada cultura concretizou essa identificação familiar pela linha paterna – o patronímico – de modo diferente: para os judeus, foi mediante o uso de ben ou bar antes do nome do pai; para os árabes, mediante uso da forma equivalente ibn; para os alemães, mediante a ligação do sufixo -sohn ao nome do pai.

Nas línguas ibéricas, por sua vez, o processo se deu mediante a declinação latina dos nomes paternos, o que produziu apelidos que existem até hoje, em geral terminados em -es, -ez ou -is. Em todos os casos citados, o sentido é o de “filho de“. A lista abaixo relaciona alguns apelidos portugueses de natureza patronímica e os nomes dos quais derivaram:

Patronímico(s) Nome(s)
Alves e Álvares Álvaro
Antunes Antão ou Antônio
Bernardes Bernardo
Diegues e Dias Diogo
Domingues Domingos
Esteves Estevão
Fernandes Fernão ou Fernando
Gonçalves Gonçalo
Joanes João
Marques Marco ou Marcos
Martins Martim ou Martinho
Nunes Nuno
Roiz ou Rodrigues Rodrigo
Soares Soeiro
Vasques ou Vaz Vasco

A nuvem de palavras abaixo apresenta 50 dos nomes mais populares em Portugal em 2016. Entre eles, encontram-se vários de origem bastante remota e que se tornaram patronímicos.

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Nomes mais populares em 2016 – Fonte: Instituto dos Registos e Notariado

Alguns nomes próprios, entretanto, não se declinaram e mantiveram sua forma quando usados como apelidos patronímicos. Entre eles, Carlos Bobone cita Afonso, Bartolomeu, Brás, Gil, Garcia e Lourenço.

Caso interessante é o das regiões islamizadas no século X, onde os nomes cristãos se mesclaram aos árabes dando origem a apelidos como Venegas/Viegas (de Ibn Egas, filho de Egas). O fato é que tanto cristãos (de origem romana ou visigoda/bárbara), quanto árabes e judeus ibéricos usaram patronímicos iniciados com Iben, Ibn ou Ben durante os séculos X e XI, o que se explica pela miscigenação existente naquele momento. A partir do século XII, no entanto, essa forma onomástica entra em decadência e os apelidos Mouro e Sarraceno passaram a identificar os que ainda se vinculavam à cultura islâmica, ainda que em condição de servos ou escravos. Após a reconquista do território e já no fim da Idade Média, esses apelidos perderam sua conotação étnica.

Como os nomes dos pais mudassem de uma geração para outra, os filhos, netos e bisnetos de determinado homem não teriam um apelido únicos que os identificasse como membros do mesmo grupo familiar. Essa limitação essencial dos patronímicos apenas se resolveu no fim da Idade Média, quando esses apelidos estabilizaram-se dentro dos grupos familiares. Ainda assim, a adoção de soluções como “o novo“, para diferenciar um filho de seu pai homônimo, acabou surgindo como forma de resolver o problemas de distinção dentro dos círculos familiares.

O crescimento populacional, no entanto, tornou mesmo soluções óbvias como “o novo” e “o velho” insuficientes para dar conta dos problemas gerados por casos de homonímia entre famílias vizinhas “nas cidades, aldeias, e mesmo na corte”, como informa Bobone. E pessoas de estirpe não gostavam de ser confundidas com simples plebeus. Apesar disso, até os séculos XVI e XVII, os patronímicos ainda predominavam nos registros paroquiais, variando sua frequência de aldeia para aldeia e de época para época.

No próximo texto, encerrarei a série sobre os apelidos com os topônimos.


José Araujo é linguista e genealogista amador.