Religiosidade

A pesquisa genealógica muitas vezes nos apresenta fatos surpreendentes, fatos que vêm para desfazer uma imagem que tínhamos sobre nossos antepassados. Meu caso pessoal é um bom exemplo disso. Até que a pesquisa genealógica demonstrasse que a realidade era bem diferente, sempre tivera a certeza de que minha família portuguesa era muito religiosa, afinal sempre vi minhas tias e primos paternos frequentando missas e participando de eventos da Igreja.

Mas, bastaria voltar uma geração para descobrir que a realidade poderia ser diferente. Segundo relato de uma tia paterna, seu pai, meu avô Antonio Maria Pinto de Araújo, não gostava de padres. Ela desconhece a razão, mas fez essa afirmação sem nenhuma dúvida, o que me leva a supor que ele deveria ter boas razões para isso.

Voltando mais algumas gerações em linha colateral, há o caso curiosíssimo de
Dona Maria Adelaide de Sá Meneses (1826-1878), filha de um nobre da terra que morreu aos 51 anos e cujo corpo, muitos anos depois, continuava supostamente intacto. O fato causou comoção e preocupação na Igreja, mas deu origem à crença popular em sua santidade, a qual nunca foi oficialmente reconhecida.

Nesse mesmo ramo familiar posso citar também o caso de José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), primo de minha trisavó paterna e padrinho de Maria Adelaide. José formou-se médico em Coimbra e envolveu-se ativamente com a política de seu tempo, tendo por conta disso sido obrigado a buscar exílio na Inglaterra e na França. Nesses países, publicou textos em que fazia defesa radical da monarquia constitucional de base liberal. Em um desses textos, chega a usar palavras duras para falar do próprio pontífice.

capela
Capela de Santa Bárbara – Barcos, Tabuaço, Viseu

Em meu caminho pelos séculos, a pesquisa trouxe-me a história de Luís do Amaral (1711-1807), antepassado de seis gerações. No batismo do filho, Ana Luísa, mãe de Luís, titubeou, mas enfim nomeou como pai ninguém menos que o padre José do Amaral Soares. Essa situação não foi desmentida com o passar do tempo, pois no assento matrimonial desse meu antepassado consta que ele era “filho natural do padre José de Amaral”. Minha tia paterna revelou em depoimento que meu avô suspeitava ser filho de padre. Isso não pude ainda comprovar, mas ao menos um tetravô padre posso garantir que ele teve.

Finalmente, um caso recentemente descoberto mostra outra faceta da curiosa relação de minha família paterna com a Igreja: uma disputa pelo pagamento de uma multa. O caso é relacionado à menina Anna Maria de Macedo (1767-1774), tia-avó de minha bisavó. A menina morreu sem receber alguns dos sacramentos porque o pároco não foi avisado de seu estado terminal. Pelas regras, a família seria penalizada em mil réis, mas Antônio de Macedo, meu antepassado de seis gerações e pai da menina, buscou provas que justificariam a desobrigação de aviso. Como não se deu por vencido, o pároco deixou registrado no assento de óbito de Anna Maria que a decisão final ficaria para o bispo.

Não acredito que esses casos sejam exclusivos ou raros, porém é curioso observar a regularidade com que membros de minha família viram-se, voluntária ou involuntariamente, envolvidos em querelas e desavenças com a Igreja.


José Araújo é linguista e genealogista amador.