Nobres

Uma tentação para os genealogistas amadores que começam a ganhar prática na busca e transcrição de assentos paroquiais é a de encontrar um nobre em sua linha familiar nos séculos passados. Essa tentação pode ser alimentada pela descoberta de um antepassado cujo apelido ou sobrenome seja identificado com uma linhagem nobre bastante conhecida. No processo de elaborar o ramo paterno de minha árvore familiar me deparei com dois casos desses.

O primeiro caso é o de Isabel de Távora (1679-1742), minha antepassada direta de oito gerações cujo apelido coincide com o de uma antiga família nobre portuguesa, cujo assento de óbito se vê abaixo, seguido da transcrição:

isabeltavora
Óbito de Isabel de Távora – 10/11/1742 – Barcos, Tabuaço, Viseu
Aos dez dias do mês de novembro de 1742 faleceu da vida presente com todos os sacramentos desta madre igreja Isabel de Távora, mulher de Domingos da Costa. Não fez testamento, está sepultada dentro da igreja. De que fiz este termo e assinei era ut supra.

Segundo o Dicionário das Famílias Portuguesas de D. Luiz de Lancastre e Távora, essa nobre família:

teve ascenção nobiliárquica constante, tendo exercido os mais elevados cargos e funções desde o século XIV até à brutal extinção de seu ramo primogénito, o dos condes de São João da Pesqueira e marqueses de Távora, em 1759, e pela iníqua sentença executada em 13 de janeiro daquele ano.

Ao mesmo tempo, D. Luiz de Lancastre informa que Távora é um sobrenome de raízes toponímicas, ou seja, foi adotado por famílias que viveram em determinada região como forma de identificação de origem. Na falta de evidências concretas da origem nobre de minha antepassada, só posso concluir que se trate de uma coincidência de natureza toponímica.

O segundo caso é o de Antônia Maria da Nóbrega (1746-1808), minha antepassada de seis gerações natural de Sernancelhe, Viseu. Abaixo se vê trecho final de seu assento de batismo, que está transcrito a seguir na íntegra com meus destaques:

batismoantonia
Batismo de Antônia Maria da Nóbrega – 13/04/1746 – Sernancelhe, Viseu
Aos 13 dias do mês de abril da era de 1746 anos, batizei e pus os santos óleos solenemente a Antonia, filha de Teodósio José de Nóbrega e de sua mulher Maria de Assunção da vila de Sernancelhe, neta pela parte paterna de Manoel de Bastos e de sua mulher Bernarda de Nóbrega, desta vila de Barcos, e pela parte materna de Antonio de Soveral e de sua mulher Felipa Soares, da freguesia de Sernancelhe. Foram padrinhos Antonio de Soveral e José de Soveral, da sobredita freguesia de Sernancelhe. De que mandei fazer este termo que assinei dia, mês e era ut supra.

O avô materno e os padrinhos de Antônia possuem um apelido nobre – Soveral – coincidentemente ou não também relacionado à localidade de Sernancelhe. Trata-se, segundo a citada obra de D. Luiz de Lancastre, de outro apelido de raízes toponímicas.

Seria apenas um caso de coincidência não fosse a descoberta de outros Soverais no assento matrimonial dos pais de Antônia, o qual se vê abaixo em seu trecho final com sua transcrição integral:

casamentoteodosio
Casamento de Teodósio José e Maria da Assunção – 2/04/1742 – Sernancelhe, Viseu
Aos dois dias do mês de abril de 1742 anos, na paroquial igreja de São João Batista desta vila de Sernancelhe, na forma do sagrado concílio tridentino e constituição do bispado, em minha presença e de muita parte do povo, contraíram o sacramento do matrimônio [] Teodósio José, filho legítimo de Manoel de Bastos e de sua mulher Bernarda de Nóbrega, da vila de Barcos, e Maria da Assunção de Soveral, filha legítima de Antonio de Soveral e de sua mulher Felipa Soares, ambos desta vila. Foram testemunhas que comigo assinaram o licenciado Francisco Manoel de [Soveral] e Manoel de Sousa Matos, ambos desta vila. De que fiz este assento que assinei dia, mês e era ut supra.

O licenciado Francisco Manoel de Soveral e Sousa e seu pai Manoel de Sousa e Matos, testemunhas no casamento de Teodósio José e Maria da Assunção, eram filho e pai e parecem ter sido figuras de destaque na região, pois estão citados em artigo nos Cadernos do Barão de Arêde número 7, página 150. Francisco Manoel, especificamente, é relacionado entre os Soverais desentroncados.

Ainda não está evidente qual a relação entre o avô materno e os padrinhos de Antônia Maria da Nóbrega e os nobres Soverais de Sernancelhe, mas as evidências parecem indicar mais do que apenas uma coincidência toponímica.


 José Araújo é linguista e genealogista amador.