Desinformação

Há alguns dias assisti a uma entrevista de um ator brasileiro que vive hoje em Portugal na qual ele discorria sobre suas preocupações a respeito da situação brasileira após o resultado das eleições de 2018. Nessa entrevista, entre outras afirmações, o ator declarou que a Europa não havia tido escravidão dentro de suas fronteiras. Ledo engano.

De fato, há quem acredite que a escravidão moderna – não estamos falando dos escravos de Roma e Grécia, portanto – foi característica das colônias europeias nas Américas, na África e na Ásia. Segundo esse raciocínio, não houve escravidão no centro dos impérios e sim apenas nas suas periferias. Mas não foi bem assim.

Para ficarmos apenas com o exemplo de Portugal, a mão de obra capturada na África para o trabalho escravo na lavoura da cana de açúcar foi antes testada em lavouras no Algarve, no sul do território português. Já abordei aqui no blogue os casos de portugueses brancos que descobriram, há algumas décadas, suas origens africanas, resultantes de uma miscigenação que ocorrera já em Portugal.

Para não ficar apenas no exemplo da escravidão africana, há registros de que, em Lisboa, durante os séculos XVI e XVII, havia escravos chineses, japoneses e até de outras origens europeias. Segundo o historiador Rodrigo Trespach, no século XVI, “não menos do que 10 mil escravos viviam em Lisboa, 10% da população total da cidade”. Já Leandro Narloch nos conta que:

O viajante e mercador florentino Filippo Sassetti, que morou em Lisboa entre 1578 e 1582, se surpreendeu com a diversidade dos escravos da cidade. “Os japoneses”, diz ele, “gente cor de azeitonas, e que aqui exercitam qualquer trabalho com proficiência, têm rosto pequeno e no resto altura razoável.” Já os chineses, “sem pálpebras e de olhos pequenos como se tivessem sido furados com um prego”, conforme a descrição do italiano, “são homens de grande intelecto e exercitam todas as profissões igualmente bem, especialmente na cozinha”. Dos indianos havia dois tipos: muçulmanos e “gentios”, como os europeus da época chamavam os povos pagãos.

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Bairro do Mocambo

Não deveria surpreender ninguém o facto de que a escravidão não se restringe a uma origem étnica ou mesmo geográfica. Da mesma forma, não deveria surpreender ninguém o facto de que povos que foram um dia escravizados também escravizaram outros e obtiveram vultosos lucros com o tráfico e/ou com o comércio legalizado – em épocas em ele que existiu.


José Araújo é linguista e genealogista amador.