Fauno

Aos quinze dias do mês de setembro de mil setecentos e onze, batizei e pus os santos óleos a Luís, filho de Anna Luís. Não quis nomear o pai, digo, deu por pai o padre José de Amaral, da granja do Tedo. Fiz, assinei dia, mês era ut supra.

O termo de assento supracitado foi anteriormente apresentado aqui no blogue e diz respeito a Luís de Amaral (1711-1807), um antepassado paterno de seis gerações nascido em Barcos, no concelho de Viseu. A paternidade que fora então reconhecida de forma retificada – “digo, deu por pai” – foi plenamente declarada no assento matrimonial desse antepassado, como se constata no termo transcrito abaixo:

Aos vinte e um dias do mês de julho de mil setecentos e quarenta e três anos, em minha presença, se receberam em face de Igreja, na forma do sagrado concílio tridentino e constituições do bispado, Luis de Amaral, filho natural do padre José de Amaral, da Granja do Tedo, e de Anna Luis, desta vila, com Maria Clara Pereira, filha legítima de Ignácio Pereira e de sua mulher Clara Pereira, todos desta vila. Foram testemunhas Domingos Luís José de Almeida e Luiza da Fonseca e muita mais gente desta freguesia de que fiz este termo que assinei era ut supra.

A presença de filhos de padres em uma árvore genealógica não constitui nenhuma novidade. A curiosidade em relação a esse caso está na descoberta posterior de outra suposta filiação do padre José de Amaral da Granja do Tedo: ele teria tido uma filha, Francisca de Amaral, com Maria Pires, solteira da Desejosa. O filho de Francisca e neto do padre, chamado Manuel, nasceu em 16 de outubro de 1738 e casou-se na mesma Desejosa em 3 de maio de 1757 com Mariana da Fonseca, conforme pude averiguar. A transcrição de seu assento matrimonial pode ser lida abaixo:

Aos três dias do mês de maio do ano de mil setecentos e cinquenta e sete, sendo pároco destas freguesias de São Sebastião da Balsa e de Santo Antão da Desejosa eu, o padre Manoel de Moura [], notário do Santo Ofício, sendo primeiro publicados os banhos em três dias festivos contínuos, segundo determina o sagrado concílio tridentino e constituição deste bispado, se receberam em minha presença e das testemunhas abaixo nomeadas Manoel Fernandes de Amaral, filho legítimo de Manoel Fernandes Coelho, natural da freguesia da Balsa, e de sua mulher Francisca de Amaral, natural da freguesia da Desejosa, e já defuntos, com Mariana da Fonseca, filha legítima de Manoel da Fonseca e de sua mulher Ana Rodrigues, naturais desta freguesia de São Sebastião da Balsa, e todos deste bispado de Lamego. É o primeiro matrimônio da parte de ambos os contraentes. Foram testemunhas presentes o [] Alexandre de Távora, António da Silva e João da Silva e Theodósio da Silva, todos destas freguesias de Balsa e Desejosa, e muitas mais pessoas que se acharam presentes. De que fiz este assento que assinei dia, mês era ut supra.

Permita-me agora um salto dos registos históricos para uma fonte literária: no romance ‘Andam faunos pelos bosques‘ (1926), do escritor português Aquilino Ribeiro (1885-1963), lê-se o seguinte trecho bastante curioso ao qual acrescento meus destaques:

Leopoldina reapareceu a chamar suas reverendíssimas-, e todos eles, largando logo, toque-toque, ruela abaixo, puseram pé em casa do Quaresma, a rescender ao fartum das tulhas e da queijeira, com o serpol e os bons-dias já secos no balcão. Na sala, de tecto em pirâmide, com espigas de milho enormes e teratológicas pelas paredes, uma vista muito amena para as hortas, a toalha, longa como vela de navio, estirava-se através de duas mesas da escola, cedidas bizarramente para o fim. Os reverendos abancaram; eram mais de vinte, do bispado e de fora, de molde quase todos a realçar, como a Paulo os apóstolos, o padre Moura Seco, homem de invejáveis letras tanto sagradas como profanas, com laivos de erasmita, verbo acostumado às alturas da Sé de Lamego e humildade das ermidinhas rurais. Marcavam também, além do padre Teodoro, filhote dos sítios, abade em Roufins, um dos mimosos do Espírito Santo: o padre Januário, de Vila da Rua, em seu saber poeirento um autêntico florilégio de saber beneditino; o abade de Peravelha com ar de fugido a uma iluminura de crónicon; o presbítero, António de Santa Maria que, sem igreja própria, forrageava forte e feio nas igrejas lautas dos beneficiados; o padre José do Amaral, espadaúdo serrano que três freguesias, Nacomba, Peravelha, Ariz, escorraçaram ao toque dos sinos com surriadas de trabuco, insigne na arruaça e na devassidão; o padre Zé da Lamosa, velho como uma bula do papa João XXI, físico de santo embalsamado, com boleto ainda, pelas redondezas, em casa de mais de uma viúva ou mulher com marido por longe; o padre Chança de Águas-Boas com a égua branca e as suas mãos finas e rosto pálido de jogador; o padre Dâmaso, arcipreste de Rio Verde, que, a torto e a direito, contra todos os males e ao sabor de todos os bens, erguia com ascética rigidez o lábaro de Cristo; o abade do Touro, anafado, bochechas de presunto, pai de filhos e lavrador, e outros, quase todos bons garfos, todos amigos da mulher, do vinho e também de Deus, em conformidade com o múrius que exerciam. E ainda alguns havia afamados pelo espírito de ganhunça, ou anónimos pela vida modesta que levavam entre duas cepas de vinha e a ama velha.

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Não é certo que a referência a um homônimo em uma obra de ficção deva servir de base para conclusões em uma pesquisa genealógica. Além disso, o facto de o escritor já haver falecido não permite que se lhe consulte a respeito de uma possível referência a uma pessoa real que viveu séculos antes da escrita dessa mesma obra. Ainda assim, há algumas curiosas afinidades entre o “espadaúdo serrano” José do Amaral e meu antepassado de seis gerações que gostava de compartilhar com meus leitores:

  1. A existência de filhos em aldeias diferentes (Barcos e Desejosa, em Viseu) parece coerente com a descrição do personagem que foi expulso de Nacomba, Peravelha e Ariz, também em Viseu, “ao toque de sinos com surriada de trabuco” na obra de Aquilino Ribeiro;
  2. Ribeiro nasceu em Sernancelhe, Viseu, e era também filho de um padre – Joaquim Francisco Ribeiro;
  3. Embora (e talvez porque) fosse anarquista, Ribeiro apresenta na obra “uma sátira genial, mas tolerante ao conservadorismo cristão e um hino ao amor livre“. Cabe lembrar aqui aos leitores do blogue que parece haver uma veia anarquista em meu ramo paterno.

A quem se interessar, o romance tem como cenário as serras da Beira e a cidade de Viseu, onde uma misteriosa e imoral criatura, que em certo ponto se afirma ser um fauno, derruba e ataca as jovens da região.


José Araújo é linguista e genealogista amador.