Chino

Em sua coluna de 16 de dezembro de 2018, o jornalista Ancelmo Gois informou que o cineasta Luiz Carlos Barreto negociava a produção de um filme sobre os cinco mil imigrantes chineses que morreram em Japeri, na Baixada Fluminense, durante a construção de um trecho da Estrada de Ferro Dom Pedro II no século XIX. Seria o resgate de uma parte da história desconhecida não só para os moradores de Japeri, mas, provavelmente, também para os brasileiros.

Esse triste capítulo de nossa história foi contado por Ademar Benévolo em 1953 na obra Introdução à História Ferroviária do Brasil, publicado em Recife pela Edições Folha da Manhã. Na página 316 dessa obra, lê-se a seguinte citação, transcrita da página 152 do Guia da E.F.C.B., do engenheiro Vicente Alves de Paula Pessoa (Filho), à qual acrescento meus destaques:

As febres que se desenvolvem e ainda hoje reinam nessa zona de pântanos, constituíram, é verdade, um sério embaraço ao empresário que não pôde conter a fuga dos trabalhadores, não obstante os elevados salários oferecidos. Para continuar os trabalhos, resolveu Mr. Price importar operários chineses, que fizeram afinal os grandes aterros, na maior parte assentados sobre faxinas. Esses chins foram, às centenas, atacados de febres e, segundo uma testemunha da época, avalia-se em mais de cinco mil o número desses trabalhadores infelizes sepultados em Belém!

Belém era o nome original de Japeri, que foi fundada em 13 de agosto de 1743 por Inácio Dias da Câmara Leme, denominado Morgado de Belém. Seu sucessor foi Fernando Paes Leme, o Marquês de São João Marcos, que erigiu a Igreja do Menino de Deus de Belém e teve grande influência na construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II com a inauguração, em 1858, da Estação de Belém, que hoje é a Estação de Japeri.

Mr. Price era o engenheiro britânico Edward Price, contratado em 9 de fevereiro de 1855 para a construção da primeira seção da estrada de ferro Dom Pedro II, que integraria o território brasileiro a partir da cidade do Rio de Janeiro, então município da Corte. Após a Proclamação da República, essa estrada de ferro passaria a se chamar Estrada de Ferro Central do Brasil – EFCB. Como o texto citado acima deixa claro, a carência de mão de obra para construção do trecho em questão levou à importação dos operários chineses.


Estação central da Estrada de Ferro Dom Pedro II (Marc Ferrez, c. 1870) – Wikipédia

Durante minhas pesquisas para reconstrução da história de minha família materna, parte dela originária da região que margeia a EFCB na Baixada Fluminense, encontrei alguns documentos que creio estarem relacionados aos tais imigrantes chineses, pois, embora os cônjuges e falecidos de que tratavam os documentos apresentassem nomes luso-brasileiros, eles eram identificados como chinos, ou seja, originários da China ou descendentes de chineses originários.

Dado que minha família viveu na região, e que os chineses sobreviventes podem ter se casado com mulheres locais, haveria a possibilidade de existirem antepassados orientais em minha árvore genealógica. Uma vez que eles não apareceram até o momento na pesquisa documental, restaria uma forma mais rápida de comprovar essa possibilidade: a pesquisa genética. Como já sei que meus antepassados diretos mais remotos são originários da Europa via oriente médio (segundo a análise do cromossomo Y) e da África (segundo análise do DNA mitocondrial), a resposta poderia vir da análise de meu DNA Autossômico.

Os gráficos abaixo apresentam a composição de meu DNA Autossômico segundo as análises dos sítios FamilyTreeDNA e MyHeritage.

MyOrigins – FamilyTreeDNA
Composição Genética – MyHeritage

Embora as análises apresentem divergências nos valores dos percentuais das principais origens etnogeográficas, ambas estão de pleno acordo quanto à inexistência de antepassados do oriente distante em minha árvore genealógica. Por essa razão, posso afirmar que os sofridos imigrantes chineses que chegaram na Baixada Fluminense no século XIX não fizeram parte de minha família.


José Araújo é linguista e genealogista amador.