Farmacêutico

Joaquim Pinto de Araújo era um jovem de 27 anos, altura mediana (1,67m), olhos e cabelos castanhos a emoldurar um rosto comprido, como informam os registros militares encontrados por mim no sítio do Arquivo Histórico Militar de Portugal.

Joaquim era filho de Jacinto de Araújo e Maria de Jesus e trineto de Manoel de Araújo (1728-1792) e Quitéria de Macedo (1730-1771), meus pentavós. Somos primos distantes, porém fisicamente muito semelhantes e poderíamos até passar por irmãos não fosse a distância temporal.

Joaquim era farmacêutico, também informa o registro militar encontrado. Outros registros informam que seu tio-bisavô José António de Araújo (ca. 1780-1885) era boticário, o que sugere ter havido uma tradição profissional nesse ramo da família originado em Barcos, Tabuaço, no concelho de Viseu.

Essas informações, no entanto, são do tipo que se pode descobrir após uma longa pesquisa em arquivos militares e paroquiais. A surpresa foi encontrar o seguinte registro, disponível no Arquivo do Distrito de Aveiro, após uma pesquisa pelo nome de Joaquim no Google, associado à sua freguesia de origem:

E continuou a sua exposição como patrono do seu constituinte. O Macedo ouviu-o em silêncio; tinha muita verborreia, pouca educação e fraca coragem.

As pessoas principais da vila reuniam-se, à noite, na farmácia mais central, comentando os casos ocorridos. Era a botica do Rifa, que tinha morrido a 1 de Fevereiro de 1887.

Os seus herdeiros – a viúva D. Maria José Rodrigues da Graça, um filho Germano Rifa e três filhas – passaram em 1 de Outubro de 1887 a botica ao farmacêutico diplomado Joaquim Pinto de Araújo, natural de Barcos, concelho de Tabuaço, na Beira Alta, nascido a 11 de Dezembro de 1857 e falecido a 30 de Maio de 1948. Veio portanto o Araújo para a Feira quando começava a haver a má disposição contra o juiz Macedo.

A farmácia está hoje transformada, tendo sido reconstruída toda a frente do prédio. Mas o resto da casa conserva-se como era no tempo do Rifa, permanecendo na mesma situação as dependências a que os espanhóis dão o nome característico de rebotica. Era lá dentro, ao fundo da farmácia, nessa dependência hoje guarnecida com os antigos corpos de armação e tendo enfileirados os boiões de loiça amarelada, que se reuniam os conjurados da revolta latente contra o juiz Macedo.

Não sei quem, infectado de judaísmo, começou a chamar Sinagoga à rebotica feirense e ao Araújo o Grão Rabino.

O dr. Bandeira, um dos advogados de então, mais tarde conselheiro, tratava sempre o Araújo por esse título honroso, mas de que este não gostava muito.

Na rebotica era grão mestre o Judas, um dos colaboradores principais do folheto referido, e lá apareciam todos os outros e ainda um Tigela que não assina nenhuma das composições literárias. Assim, pois, o Araújo ficou logo nos primeiros anos da sua estada na Feira consagrado como Grão Rabino da Esnoga de Eifar, nome arreigado da rebotica durante esses dois anos de luta clandestina, mas acerba e pertinaz.

Outro dos influentes da Sinagoga identifica-se no professor primário e maestro da banda de amadores, António Martins Soares Leite, autor do Hino da Feira, cujo primitivo nome foi Hino da Esnoga de Eifar.

O texto sugere que Joaquim em algum momento transferiu-se para a freguesia de Feira, em Santa Maria da Feira, no concelho de Aveiro. E também que nessa localidade ele se viu involuntariamente envolvido em alguma contenda em que seu nome foi figurativamente associado a atividades judaicas.

Jean Baptiste Debret – Botica, 1823

Fosse outra a época, Joaquim poderia ter caído em desgraça perante o Tribunal do Santo Ofício, sido acusado de judaizante e sofrido as duras penas comuns nesses casos.

Para sua sorte, a o tribunal encerrou suas atividades em 1821, mas parece que apenas 30 e poucos anos não bastaram para apagar a triste memória do infame tribunal nem a carga de antissemitismo que ele gerou.


José de Araújo é linguista e genealogista amador.