Pobríssimos

Os assentos paroquiais – de batismo, casamento e óbito – nos fornecem informações preciosas sobre as origens de nossos antepassados que nos permitem reconstruir os ramos de nossas árvores familiares. Mas eles costumam fornecer também dados que nos permitem descobrir em que condições viveram nossos familiares.

A transcrição abaixo, a princípio, regista o casamento de Manoel António com Delfina Moitas em 28 de julho de 1863 na vila de Barcos, em Tabuaço, Viseu. Manoel foi um dos filhos de meu pentavô Francisco José Pinto do Souto (1770-1850), por sua vez filho do cirurgião António Pinto Rebello (1727-1808), sobre quem publiquei outros textos aqui no blogue.

Aos vinte oito dias do mês de julho do ano de mil oitocentos e oitenta e três, nesta igreja paroquial de Barcos, concelho de Tabuaço, diocese de Lamego, na minha presença compareceram os nubentes, os quais sei serem os próprios, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canônico ou civil para o casamento, ele de idade de 23 anos, solteiro, jornaleiro, natural desta freguesia, onde foi batizado e na mesma morador, filho legítimo de José António Pinto do Souto, natural desta freguesia e de Maria Delfina de Macedo, natural desta freguesia; ela de idade de 22 anos, solteira, jornaleira, natural desta freguesia, onde foi batizada e na mesma moradora, filha legítima de Manoel Pereira Mendes, natural desta freguesia, e de Maria Angélica, natural de Pinheiros, do mesmo concelho e diocese, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e os uni em matrimônio, procedendo em todo este ato conforme o rito da santa madre Igreja católica apostólica romana. Foram testemunhas presentes que sei serem os próprios por informação, proprietários, digo, José Joaquim Cristão e Joaquina de Assunção, proprietários, moradores na freguesia de Pinheiros, do mesmo concelho. E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas, comigo o não assinaram por não saberem escrever. Era ut supra. O abade António Lopes Roseira.

O assento prossegue para informar que os cônjuges reconheceram um filho que tiveram no ano anterior, porém o mais interessante está na averbação à esquerda, na qual se lê:

Este assento não leva o selo competente por serem pobríssimos os contraentes. Também fiz tudo de graça. – Roseira

O facto de os nubentes serem identificados como jornaleiros já denotaria algo de sua condição social, mas esta é reiterada pela averbação. A curiosidade é sobre os caminhos que levaram um ramo da família – parte dos filhos e netos do cirurgião António Pinto – a ter uma condição social que lhes permitiu frequentar a universidade em Coimbra – e se destacar na política local – enquanto outro ramo a viveu da exploração de seu trabalho na lavoura.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

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