Extemporâneo

Em minhas pesquisas em assentos paroquiais de batismo, já encontrei alguns casos interessantes, como o de escravos batizados na idade adulta, certamente pela necessidade de serem convertidos à fé cristã depois de trazidos à força desde o outro lado do Atlântico. Mas encontrei também outros casos – que avalio como curiosos – de batismos não tão tardios, mas realizados depois do prazo previsto pelos costumes da Igreja.

O primeiro caso é o de Januário Pinto do Souto, tio de minha bisavó paterna, neto do cirurgião António Pinto Rebello (1727-1808), figura de destaque em minha árvore. Januário nasceu em 22 de fevereiro de 1810 na vila de Barcos, no concelho de Viseu, mas foi batizado quinze dias depois por uma razão bastante curiosa, como se constata pela leitura de seu assento de batismo, o qual transcrevo abaixo.

Aos dez dias do mês de março do ano de mil e oitocentos e dez, nesta paroquial igreja colegiada de Nossa Senhora da Assunção de Barcos, batizei solenemente e pus os santos óleos a Januário, que tinha nascido a vinte e três de fevereiro do dito ano e não foi batizado dentro do tempo determinado pela constituição pelos pais não me darem parte. Filho legítimo de Francisco Pinto e de Luíza Maria, ambos naturais desta freguesia, sendo o primeiro matrimônio da parte de ambos. Neto paterno de António Pinto Rebello e de sua primeira mulher Maria Josefa, natural de Santa Leocádia, e o dito António Pinto desta dita freguesia. E neto materno de António Macedo e de sua mulher Maria Veiga, ambos naturais desta freguesia. Foram padrinhos Francisco Barradas e Thereza, solteira, filha de José Pinto Rebello, tia do batizado. E testemunhas, o padre sacristão António Duarte, natural de freguesia de Parada de Ester, deste bispado, e José Mota, desta freguesia, que comigo aqui assinaram dia, mês e ano ut supra.

Se os pais de Januário parecem ter sido relapsos, os de Luísa Delfina, tia de meu bisavô paterno, não tiveram muita escolha, exatamente quatro anos antes, além de ver o batizado da filha atrasar. É o que se constata pela revelação do pároco em seu assento de batismo, que também transcrevo.

Aos dez dias do mês de março de mil e oitocentos e seis anos, nesta paroquial igreja colegiada de Nossa Senhora da Assunção desta vila de Barcos, e na forma do sagrado Concílio Tridentino e constituição deste bispado, batizei e pus os santos óleos solenemente a Luísa Delfina, que tinha nascido a vinte e seis de fevereiro do dito, e não foi batizada dentro do tempo determinado pela constituição deste bispado por se achar o pai da dita criança em Lamego e haver uma neve que o fez demorar alguns dias. Filha legítima de José António de Carvalho e Josefa Rosa do Espírito Santo, sendo o primeiro matrimônio da parte de ambos e ambos naturais desta vila de Barcos. Neta pela parte paterna de António dos Santos e de Anna da Assunção, ambos naturais desta vila, e neta materna de Manoel de Araújo, natural de Santo Aleixo, e do segundo matrimônio, e de Antónia de Nóbrega, natural desta vila. Foram padrinhos António de Macedo e Maria de Araújo, ambos naturais desta vila, e testemunhas, o padre Manoel, ecônomo nesta vila, digo, colegiada de Barcos, e o padre António Duarte, sacristão nesta mesma colegiada, naturais do lugar de [], freguesia de Parada de Ester deste bispado. E para constar fiz este termo de assento dia, mês e ano ut supra.

A leitura dos assentos paroquiais geralmente nos causa surpresas como essas, na forma de comentários dos párocos. É por meio desses comentários que conseguimos perscrutar detalhes da vida de nossos antepassados.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

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